08. “Contacto”
«Receio ter perdido de vez a minha paciência» disse Evergrim, muito devagar, de humor rarefeito. Olhou mais uma vez para a panorâmica, para ter a certeza do que estava a ver, e depois, finalmente, para Autumnsun. «Parece-se terrivelmente com a Arcadia. Mas se não é a Arcadia, o que é então?»
«Não faço a mais pequena ideia» respondeu o autoproclamado homem mais inteligente da História da Humanidade. «Os meus poderes são muitos e variados, todavia ainda não consigo ler a mente ao Universo para descobrir o que é que ele está a pensar neste momento.» Mas Autumnsun podia adivinhar. Tudo o que estava a acontecer batia certo com as suas teorias mais íntimas.
«Preciso mais do que sarcasmo adolescente em que basear as minhas decisões» disse a Senhora. «Quero saber o que todos pensam. Doutor Ellie? Você parece-me uma pessoa razoável. Diga-me, isto é a Arcadia? E pode dar-me uma resposta simples, por favor? Recordo-lhe que sou uma mera militar de carreira. Tenha piedade.»
«Não tenho dúvidas» respondeu Ellie, olhando de soslaio para Autumnsun, e de frente para a cauda de peixe da enorme nave espacial. «É a Arcadia. Confesso que a ausência de emissões de energia também me causa estranheza, mas os Alphas estavam muitas centenas de anos à nossa frente em termos tecnológicos.»
«Ms. Fableshade?»
«Concordo, Senhora» disse Fableshade da plataforma inferior do Cortex. Wormsong a seu lado acenou também, afirmativamente. «Eu trato por tu todas as peças da engenharia espacial moderna e sei todos os seus segredos. Mas quando olho para os planos esquemáticos da Arcadia sinto-me como se tivesse cinco anos outra vez. Se a nossa tecnologia fosse um quadrado, estou convencida que a da Arcadia seria um cubo.»
«Muito bem.» Evergrim olhou para Autumnsun, apoteótica. Talvez assim o pequeno génio se calasse. «Não podemos ter sempre razão…»
Evergrim deleitou-se com o rosto amuado que Autumnsun ergueu na sua direcção e virou-se para conferenciar com Stonewall. Autumnsun sentou-se para trás na cadeira e olhou para os monitores luminosos da sua consola. Por uma vez, perdera a vontade de dizer fosse o que fosse. O génio do século 51 parecia uma criança a quem, pela primeira vez, fora negado um capricho. Himikomori notou o estado de espírito do amigo e aproximou o seu rosto do dele.
«Acho que Evergrim não gosta lá muito de si, Mr. Autumnsun» sussurrou a representante da Companhia, junto do ouvido do outro.
«Aquela é a Arcadia, Autumnsun» insistiu Ellie, fazendo um meneio com o queixo na direcção da janela panorâmica do Cortex. O tom de voz era conciliador, mas firme. «Não sei como explicar-lhe, mas estou certo que estamos a olhar para a Arcadia.»
«Nunca disse que não era a Arcadia» respondeu-lhe Autumnsun, numa voz sumida. «Apenas disse que podia não estar exactamente ali, onde a vemos.» Mas se os outros preferiam continuar a bater com a cabeça nas paredes, por agora Autumnsun ia deixá-los.
A Cry of the Angelus acabava de completar uma circum-navegação à Arcadia, estivesse esta ou não exactamente ali. Evergrim pediu a Wormsong que afastasse a Cry of the Angelus e a estacionasse numa colocação próxima, de frente para o perfil da nave maior e numa posição ao nível da Torre. Wormsong transformou a Cry of the Angelus numa espécie de miradouro, de onde se podia observar não só a Arcadia mas também o planeta verde enrolado em estreitas nuvens atmosféricas brancas. Num horizonte que partia à esquerda na panorâmica do Cortex, naquela posição, era possível ver a maior das duas luas do planeta. E, claro, todo o universo ao fundo.
«Tenho um novo contacto, Senhora» anunciou Stonewall, de repente. Apontava para a sua consola, indicando a Evergrim o que lhe havia chamado a atenção. «Aqui, na órbita da lua grande.»
«Só pode ser a Fortuna» afirmou Evergrim, dizendo que sim com a cabeça. «Tem de ser a nave de Athena.»
«Não há contacto visual mas posso confirmar que são as coordenadas que a Fortuna transmitiu à Schola Belicus antes de partirmos.»
«Só que não está a emitir a sua matrícula» observou Muirwell. Fitou Stonewall e banhou-o com a sua ansiedade. «Não está a seguir o regulamento de navegação.»
«Mr. Muirwell, encete as comunicações» ordenou Evergrim, endireitando-se na cadeira ergomorphica. «Cartão de visita habitual.»
«Senhora.» Muirwell activou mais uma vez os instrumentos de comunicação. «Comunicação aberta. Em nome da Senhora Evergrim, esta é a nave-soldado Cry of the Angelus, 23-5-1121, Armada de Exploração da Schola Belicus, procurando contactar nave não-identificada. Por favor, qualifique transmissão.»
«Senhora, temos uma holoimpressão sónica do objecto, que o nosso radar já conseguiu delinear» informou Stonewall.
«Colocar no projector» disse Evergrim.
A imagem que surgiu acima das cabeças de todas as astronautas era apenas uma silhueta que se assemelhava a mercúrio líquido e transparente. A escala era desconhecida, não havia base de comparação e, mesmo assim, aquela nave dava a impressão de ser relativamente maior do que a Cry of the Angelus.
«Reconheço toda esta estrutura da proa» disse Dreamfrost, apontando a sua mão magrinha para a imagem que rodava lá em cima. «É a Fortuna de Athena. Estive a bordo antes de partirem…»
«Não está a responder ao nosso cartão de visita» comentou Muirwell, estabelecendo o óbvio. Olhou para Evergrim, esperando mais instruções. «Nem rádio, nem holo… Permanece silenciosa.»
«Prossiga com procedimento de identificação padrão.» Evergrim apoiou o corpo num dos braços da cadeira e fitou o técnico de comunicações. «Faça-o num tom que exprima firmeza, Mr. Muirwell. A sua voz tem poder. Nunca se deu conta?»
«Esta é a Cry of the Angelus» disse Muirwell, emitindo a sua voz através do espaço que separava as duas naves, «sob os desígnios de autoridade da Schola Belicus, por favor qualifique a sua identificação.»
Fez-se um quase total silêncio no Cortex, enquanto se esperava por algum tipo de resposta vinda da nave que se supunha ser a Fortuna, porta-estandarte do império arqueológico que era a Athenacorp. Evergrim batia leve e repetidamente com os dedos da mão direita no lábio inferior. Podia ouvir a respiração de Stonewall, na consola em frente. O navegador estava perfeitamente imóvel, uma estátua loura e alta. À esquerda da Senhora da Cry of the Angelus, Himikomori, Autumnsun e Ellie também esperavam. Himikomori enrolava o cabelo vermelho no polegar esquerdo. Autumnsun parecia interessado naquela expectativa, embora o seu rosto não tivesse ainda clareado todo o amuo de há pouco. Ellie olhava para os monitores dos instrumentos de ciências e executava algumas tarefas de verificação.
O Cortex descia um nível para a plataforma seguinte. Harlownet, nos sistemas de suporte de vida, impassível e mais bela que nunca. Muirwell na consola ao lado, como se esperasse uma mensagem vinda directamente dos lábios de Deus, observando os resultados nos monitores. Stonewall, postura militar e treinada, sentado à beira da ergomorphica. Ao lado do navegador, Berrylight, dos sistemas de armamento, parecia o mais descontraído. O tamborilar que se ouvia eram os seus dedos a dançar nos braços da cadeira e a afugentar o silêncio. Berrylight odiava o silêncio. Era outro tipo de noite dos sentidos para ele.
A terceira plataforma tinha à direita a posição da chefe de engenharia. Fableshade era das mais veteranas a bordo da Cry of the Angelus, dividia a sua concentração entre o que se passava no Cortex e o que lhe diziam as suas subalternas no Plasmacore. Radiotelepaticamente, informava-as em tempo real de tudo o que se passava. Wormsong estava expectante no seu lugar de piloto, queixo amparado pela mão direita, recobrando energias. Na consola de Navegação, Stonewall abanava a cabeça negativamente.
Abaixo das três plataformas de consolas ficava o nível mais baixo da sala. Greymalkin, sempre descalço, tinha-se sentado no parapeito e esperava pacientemente. Dreamfrost tacteava-se em busca de cigarros, algures escondidos no seu uniforme, mas não havia nenhum. Regulamentos. Estava de cócoras, virada para o vidro reatomizado, a mãos unidas num gesto que se assemelhava imenso com uma prece, junto ao rosto. Pensava em oportunidade perdidas. Estava previsto ter viajado com Athena na busca pela Arcadia. De certa forma, o destino conspirara para o trazer até ali.
«Repita, Mr. Muirwell, por favor» pediu Evergrim. «Maior urgência, desta vez…»
«Contacto!» Exclamou Muirwell, no auge da sua juventude. «Está a emitir a matrícula… muito lentamente…1092-975-94…» Olhou para Stonewall. «Confirmo a identificação. É a Fortuna.»
«É a Fortuna» confirmou Stonewall.
«Mr. Muirwell, transfira os protocolos de emissão para a minha voz» comandou Evergrim. «Quero conversar.»
«Senhora.» Quando completou a tarefa, Muirwell olhou para a Senhora da Cry of the Angelus. «Pronto.»
Evergrim aclarou a voz.
«Fala a Senhora Evergrim, da Cry of the Angelus. Dirijo-me à comandante da Fortuna, Professora Athena. Qualifique transmissão.»
Nada. Muirwell abanou a cabeça na direcção de Evergrim que a olhara, inquisitoriamente. Do outro lado, apenas o silêncio glacial do espaço. Evergrim detestava ser ignorada daquela maneira.
07. “Realidade Imaginável”
A Cry of the Angelus rodeava o gigante da engenharia humana para o contornar pela proa e inspeccionar o flanco oposto. A Arcadia descansava sob o que parecia ser um invólucro de conforto e infelicidade. Triste devido à sua imobilidade. Dorminhoca e aparentemente frágil. Como um momento roubado a tempos idos. Ou um local roubado, que fora finalmente resgatado aos mistérios do tempo e do Universo, embora sem se saber muito bem como. O mais certo seria ter sido devolvido.
«O eterno insatisfeito» comentou Himikomori com o primeiro sorriso desde que a Arcadia se revelara ante olhos inicialmente incrédulos. «Porque não consegue desfrutar de todas as emoções que um momento como este lhe quer oferecer, Mr. Autumnsun? Quantas oportunidades terá de viver momentos assim? Momentos perfeitos em tudo?»
«Perfeitos, talvez…» Autumnsun tinha uma expressão sombria. «Perfeitos em tudo mas, de alguma forma, neste caso, com indícios de não serem exactamente reais. Demasiado perfeitos, é o que eu quero dizer...»
A proa da Arcadia era maior que muitas das estações orbitais humanas em actividade. A nave-soldado, em comparação com aquela estrutura, era um pequeno insecto que sobrevoava temerário a ilharga de um mastodonte aparentemente adormecido. A redoma superior exibia enormes panorâmicas de vidro reatomizado, duas daquele lado e, adivinhavam-se, duas do outro. Eram como olhos negros que observavam a pequena nave da Schola Belicus e atentavam a todas as suas movimentações. Coligindo informações.
Entre essa redoma e a inferior, algo mais pequena, a traça da Arcadia encontrava-se no que quereria ser uma espécie descomunal de boca, sempre na mesma temática do peixe pré-histórico. Das extremidades interiores, mais antenas e sensores se estendiam para a frente, como lanças mortíferas dispostas em círculo à volta de uma peça protuberante que seria vinte vezes maior que a Cry of the Angelus. Através dessa enorme bocarra, seria possível olhar para dentro da Arcadia caso a escuridão ali não persistisse em resistir à influência reveladora da estrela local daquele sistema planetário.
«Linda» exclamou Fableshade, com as mãos nas faces, olhando para o que não passara, durante grande parte da sua vida, um objecto de estudo teórico e inalcançável. Nem sequer era um sonho que se realizava. Os sonhos dela nunca tinham alcançado assim tão longe. «Estás a vê-la, Wormsong?»
Wormsong achou que não tinha necessariamente de responder àquela pergunta. Tinha levado a Cry of the Angelus para suficientemente perto, de tal forma que toda a panorâmica do Cortex se encontrava ocupada com a proa da Arcadia. Se esticassem o braço através do vidro reatomizado, Wormsong e Fableshade quase poderiam tocar nas hastes sensoriais mais impetuosas que cresciam da embocadura da Arcadia.
«Quero uma leitura da emissão da energia da Arcadia» disse Evergrim, olhando por cima do ombro. «Alguém sabe fazer isso?»
«Eu» adiantou-se Autumnsun, movimentando rapidamente os dedos nos teclados de luz da consola de ciências. «Mas nem preciso de o fazer. A Arcadia está completamente inerte.»
«Quero um relatório exaustivo à mesma, Mr. Autumnsun» insistiu a Senhora Evergrim, embora concordasse com aquela análise rápida. Ao longo dos trinta e um dias de viagem, aprendera a confiar nos instintos do jovem génio. «De todos os sensores.»
«E luzes» lembrou-se Ellie. «Seria bom poder ver para onde estamos a olhar.»
Os projectores da Cry of the Angelus foram activados por Harlownet da sua consola. Os focos de luz atravessaram os três quilómetros de distância que separavam as duas naves e atingiram como uma vaga espumante a superfície obscurecida da proa no momento em que a Cry of the Angelus se punha entre a Arcadia e o planeta verde.
«Atenção à força gravitacional» aconselhou Rawbone a Wormsong. Os dois partilhavam a consola de pilotagem embora o astronauta da Cry of the Angelus fizesse todo o trabalho. Afinal, aquela era a sua nave, a sua consola.
«Não estamos sob o efeito de nenhuma» respondeu Wormsong.
«Devíamos estar» insistiu o Senhor da Shortcut Tango. Apontou a mão para o planeta verde. «Estamos suficientemente perto deste planeta para isso.»
«Sou um piloto excelente» gabou-se Wormsong, «mas tanto assim também não. Numa situação normal, estaria agora a tentar estabilizar a Cry of the Angelus e contrariar os efeitos gravitacionais do nosso amiguinho verde. Uns estremecimentos, uns abanões, nada a que não estejamos já todos habituados, certo? Só que os meus instrumentos estão completamente descontraídos. Podia voar a Cry of the Angelus sem mãos, neste momento.» Wormsong sorriu de uma forma muito branca. «Sabe o que quero dizer…»
«Sim…» Rawbone sorriu também. Sabia. «A Arcadia deve gerar algum campo de estabilização que lhe permite estar tão próxima do planeta assim, sem sofrer os efeitos da atracção gravitacional. E nós estamos dentro desse campo.»
«A Arcadia não está a gerar energia alguma» confirmou Autumnsun, lendo os relatórios que lhe chegavam à consola vindos da consola de ciências.
«Se não gera energia» disse Fableshade, «como mantém um campo estabilizador?»
As luzes da Cry of the Angelus revelavam o outro flanco da Arcadia mas não conseguiam respostas à pergunta da engenheira. Aquele lado da proa da Arcadia era exactamente igual ao lado oposto. Mesmo os módulos que ficavam logo a seguir pareciam seguir a disposição aparente do outro flanco. Os projectores potentes banhavam milhares de janelas e panorâmicas que pareciam estender-se por corredores laterais, mas não penetravam para lá do vidro reatomizado de todas elas. A escuridão reinava dentro da Arcadia e não deixava que nada se visse lá dentro. Tudo o que as astronautas podiam ver era a fachada irregular da Arcadia. A Cry of the Angelus seguia mais ou menos a meio da superestrutura, e aproximava-se agora do ponto nascente da Torre, o complexo de controlo da Arcadia que se erguia até ultrapassar o pico da popa. Tudo às escuras. Parecia que ninguém estava em casa.
«E os Alphas?» Perguntou Dreamfrost, olhando para Greymalkin, que tinha estado muito calado desde que a sua magia dera certo. «Onde estão? Será que vão ligar todas as luzes ao mesmo tempo e gritar “surpresa!”?»
«Hmm...» Greymalkin apenas abanou a cabeça com apreensão. Não acreditava muito nessa hipótese. Alphas não tinham um grande sentido de humor.
«Os sensores dizem que não há vida a bordo» disse Ellie, depois de trocar umas impressões com Autumnsun e debater com ele os resultados que acabavam de chegar.
«Confirmam-se então os relatos da Fortuna» concluiu Evergrim. Não dava ares de quem estava realmente desanimada com isso. Antes contente, por tudo bater certo com o que era esperado à partida para aquela missão. Evergrim odiava surpresas. O seu sentido de humor também não era famoso.
«Acabo de fazer um exame à atmosfera interior da Arcadia» anunciou Harlownet, num tom de voz muito profissional. «Os sistemas de suporte de vida estão desligados. Nada conseguiria sobreviver lá dentro sem um gerador halo de exteriores. O ambiente é exactamente igual ao vácuo do espaço exterior. Hostil à vida.»
A Cry of the Angelus passava à sombra da Torre. Wormsong manobrava a nave sem deixar que a sua concentração fosse perturbada pela curiosidade que sentia naquele colosso adormecido. A palavra mais correcta seria “morto”. Sobrevoavam o cadáver de um sonho, um mito que se perdera, deixando para trás apenas uma casca vazia nos confins dos braços exteriores de Andrómeda, e poucas ou nenhumas respostas. Wormsong manteve a concentração, estava treinado para isso, mas não pode evitar sentir-se invadido por uma súbita sensação de compaixão. Tristeza.
Autumnsun raramente fazia uso das emoções. Nunca se arrepiava. O intelecto era rei e senhor de tudo o que se passava dentro da sua cabeça. O academiano olhava em volta e repreendia a postura de todos os outros astronautas presentes no Cortex.
«Não ocorreu ainda a nenhum de vocês o estranho que tudo isto é?»
«Claro que é estranho» respondeu Stonewall com o sobrolho carregado. «Não é todos os dias que…»
«Não é isso» interrompeu Autumnsun. «A Arcadia não emite nenhum tipo de energia. Compreendem o que estou a dizer? Nenhum. Tipo. De energia. Nada.»
«Claro!» Ellie olhou Autumnsun, percebendo aquilo que o seu intelecto já havia detectado instintivamente. «Até um buraco negro emite níveis de energia.»
«Tudo é feito de energia» disse Greymalkin, lá de baixo, junto ao vidro panorâmico. «Mesmo a Arcadia tem de ser feita de átomos, por muito avançada que a tecnologia Alpha estivesse há quinhentos anos. E os átomos emitem energia.»
«Eu fiz os sensores darem uma volta exaustiva» declarou Autumnsun. «Nem os exames a nível atómico detectam seja o que for. Todas as leituras são negativas, e isso simplesmente não é possível. Nada no Universo pode dar leituras destas.»
«O que está a dizer, Mr. Autumnsun?» Perguntou Himikomori.
«Estou a dizer» respondeu ele, apontando a mão direita à popa da Arcadia que se agigantava conforme a Cry of the Angelus se aproximava, «que não posso garantir que a Arcadia esteja realmente ali.»
Quando falava nas minhas viagens omiti um local que hoje vejo ao longe. Como uma pequena coroa de rei plantada em pleno desaguar do rio Tejo no mar, lá está ele, o Bugio. Visitei-o como quem vai a um minúsculo país encantado, quando os meus pés ainda eram de fada.
Olho sempre de frente para o farol. Digo olá, bom dia. É meu amigo e responde.
O mar, esta tarde, brinca com o Sol ao Inverno. Baila e baila por entre as rochas, contente que está. Dá vontade de ficar aqui a olhar esta alegria toda que nos inunda. Espairecer. É o que aqui se pode aprender a fazer. Quando se dorme onze horas seguidas. É essa a mensagem que o corpo manda dizer: leva-me a ver o Bugio.
Se tivesses vindo comigo, ver o rio deste lado de cá, teria estendido a minha mão fechada: “ adivinha o que tenho aqui dentro!”
E depois deixava que espreitasses só um bocadinho. Para não deixar escapar. Adivinhaste? Sim: a Rússia!
06. “Realidade de Contacto”
Todas as consolas irradiaram ruídos quando receberam instruções para fazerem o reboot. Manifestações de luz irromperam à frente dos tripulantes enquanto as consolas sequestravam partículas em suspensão na atmosfera a bordo da Cry of the Angelus para criarem ecrãs de interface resplandecentes.
«Não executem nenhuma batida do Universo próximo» aconselhou Greymalkin. «Digam antes aos vossos sensores que a Arcadia está nas coordenadas indicadas, não lhes peçam que a procurem aí. Insiram os dados por vocês. Obriguem os sensores a acreditarem no que vocês lhes dizem. E sejam veementes, por favor. Trata-se de dar a volta a tecnologia infalível valendo-nos apenas de convicção.»
«Insiram as coordenadas» ordenou Evergrim. «Mr. Wormsong, como vamos?»
«Vou mudar para os instrumentos assim que o Senhor Rawbone insira as informações da Arcadia» respondeu Wormsong, suando biblicamente. «Já me dói a cabeça, e sinto que me vem aí uma crise de choro se tiver de continuar por muito mais tempo…»
«Descarregando coordenadas do meu cérebro…» disse Rawbone, concentrado. Queria acreditar no que estava a pensar. Não podia dar-se ao luxo de ter dúvidas, e transmiti-las involuntariamente para os instrumentos. «Já está!»
«Ah…!»
Wormsong adicionou os auxiliares da Cry of the Angelus às suas incríveis capacidades de pilotagem mental. A nave parou de oscilar quase instantaneamente. O piloto forçou a rota para se afastarem mais do planeta, ao mesmo tempo que se aproximavam do evento de horizonte. Naqueles instantes, Wormsong sentia-se como se fosse o melhor piloto do Universo. Provavelmente, era-o. Estivera a instantes de romper num pranto.
«Mr. Stonewall, já pode imprimir nas panorâmicas o alvo holomático referente às coordenadas da Arcadia?» Quis saber Evergrim.
«A calcular…» disse Stonewall, meio irritado por ter sido interrompido nos seus processos de pensamento. «Pronto. A Arcadia deverá aparecer ali.»
No vidro reatomizado da janela panorâmica do Cortex apareceu um pequeno alvo luminoso amarelo que parecia brilhar do lado de fora da Cry of the Angelus. Apesar da nave se mover, o alvo mantinha a sua posição, guiando os olhares de todos a bordo.
«Deverá aparecer no nosso campo visual precisamente no alvo indicado a amarelo.»
«Acha que isto vai funcionar, Mr. Autumnsun?» Perguntou Himikomori. «Na prática, estamos todos a fazer com que o nosso desejo se torne realidade…»
«Pode funcionar» garantiu Autumnsun. «Mas não nessa perspectiva mística obscura. Os campos de distorção temporal são factos científicos dos enigmas quânticos e a sua resolução pode surgir de muitas formas. Greymalkin apenas lhe deu uma forma mais mística, porque é do feitio dele, mas podíamos substituir todo o seu discurso por termos científicos que ia dar no mesmo.» Autumnsun viu que Himikomori continuava muito reticente. Deu-lhe um toque na mão e trocou com ela um olhar de apreço. Até no Cortex havia tempo para o romance. «Confie em mim, Himikomori-san. Eu formei-me em Física Quântica só para ter a certeza do que estou para aqui a dizer…»
O evento horizonte do planeta vermelho esboçou um aro muito amplo e o resto do universo começou a despontar do outro lado, negro e pontilhado por estrelas como seria de esperar. Assomava como um véu de trevas no lado esquerdo da panorâmica do Cortex enquanto a nave-soldado prosseguia a envolvência da rota orbital do globo ciclópico encolerizado. Os astronautas represavam a respiração, deslocando a sua vigilância dos instrumentos para a panorâmica e de regresso aos instrumentos. Wormsong rangia os dentes devido ao esforço que fazia nas suas tarefas de pilotagem, e o som repercutia-se pela sala impunemente.
O enorme planeta parecia mover-se para a direita da panorâmica, e já não faltava muito para que a linha de visão até ao seu vizinho esverdeado ficasse desimpedida. Greymalkin gostava de estar tão confiante na sua estratégia como naquele momento dava a entender aos outros que estava. O alvo impresso por Stonewall no vidro reatomizado ainda assinalava um ponto no espaço que não era possível ver devido à massa do planeta vermelho ainda se encontrar a bloquear a perspectiva. Com o coração nas mãos, o psicólogo observava o ponto imaginário de luz amarela brilhar e aproximar-se do momento da revelação.
«Será que…» ia alguém a dizer.
«Shh!» Cortou outro dos presentes.
Aquela não era a altura indicada para se falar. Não era o momento para especulações. O planeta verde-escuro apresentou-se ao fundo, apenas parcialmente, de início. O planeta vermelho tremeluziu e escondeu-se por completo no extremo direito da panorâmica. Aquele era o momento. Todos tentaram visualizar a Arcadia ali, a incidir a sua enorme sombra negra sobre a superfície esverdeada do planeta que lhe servia de âncora à realidade. Todos tentaram acreditar que a Arcadia estava ali. Todos fizeram de conta que a Arcadia estava ali. Mas não estava lá nada. Não estava lá absolutamente…
O primeiro a vê-la foi Wormsong. Ou talvez todos a tenham visto ao mesmo tempo, perfeitamente sincronizados, mas Wormsong fosse o único ainda com alguma saliva suficiente que lhe permitisse dizer…
«Ali!»
…com uma voz que noutra situação negaria a pés juntos ser sua. Aquela palavra foi a deixa para que todos os outros homens e mulheres começassem a falar, ao mesmo tempo, dizendo basicamente as mesmas coisas, ou parecidas, sem sequer se ouvirem a si próprios ou aos outros. A Cry of the Angelus ainda estava muito longe, mas os olhos não se atreviam a desmentir o que alma acreditava ser real. Desenhada contra aquela face do planeta verde via-se a sombra que uma estrutura descomunal projectava. Apenas uma silhueta negra cuja parte da frente se assemelhava a uma cabeça de um peixe pré-histórico. Duma espécie rara, que já não era vista há trezentos e dezasseis anos. Um fóssil finalmente desenterrado da poeira do Universo, cheio de histórias para contar aos astronautas de olhos bem abertos que o observavam, ao mesmo tempo que se preparavam para bater à porta da histeria.
«Sensores?» Perguntou Evergrim num sussurro, quando finalmente conseguiu dizer alguma coisa sem ser interrompida por exclamações de espanto e assombro.
«Contacto positivo e estável nos sensores de navegação» disse Stonewall. «A Arcadia está ali. Podes confirmar, Wormsong?»
«Sim, também a tenho» respondeu o piloto. «Está ali.»
A Cry of the Angelus, livre de achaques orbitais, chegava-se muito rapidamente mais perto do planeta verde e, a olho nu, começavam a ver-se fiapos de nuvens brancas estendidas como anéis ao longo da sua aura atmosférica. Não tão imponente quanto o seu irmão vermelho, este planeta não deixava apesar disso de ser grandioso. Mesmo assim, a Arcadia não se intimidava. Imprimia orgulhosa a sua sombra sobre a face do globo que rodava vulnerável ante aquela presença enigmática e inamovível mesmo ali, bem dentro da sua autoritária influência orbital.
A proa da Arcadia estava apontada ao lado esquerdo da panorâmica do Cortex da Cry of the Angelus. O perfil arredondado das enormes redomas de aspecto metálico escurecidas seguia na direcção contrária, tanto na parte superior que dizia respeito à cidade alta, como na parte inferior que ocultava a cidade baixa, até se juntar com as linhas elegantes dos módulos ou cúpulas bem mais pequenos. O perfil suavizava-se na zona inferior bojuda da superestrutura e estendia-se sem percalços até à estrutura da popa que parecia a barbatana posterior, mas invertida, do tal peixe. A estrutura em quarto-crescente da popa curvava-se sobre o resto da Arcadia e a sua extremidade superior erguia-se mais alta que a Torre que despontava do flanco oposto àquele que estava virado para a Cry of the Angelus.
«É enorme…!» Deixou escapar Dreamfrost, momentaneamente esquecida dos cigarros, momentaneamente esquecida que alguma vez tinha fumado.
A Cry of the Angelus aproximava-se ainda mais. Toda a Arcadia estava às escuras, mas a luz da estrela daquele sistema derramava-se cautelosamente sobre a sua superfície rugosa e acidentada e permitia alguns vislumbres por parte dos astronautas. As protuberâncias que se estendiam da face interior da cauda pareciam antenas e eram aos milhares. Eram riscos traçados de encontro a um jogo de verde e branco do planeta que ficava do outro lado. Faziam parte dos mecanismos dos poderosos motores de Elisia e cresciam ao longo dos seis mil metros de altura de toda a face interior da popa da Arcadia.
A redoma central reflectia alguns raios enviados do sol mais próximo, o que permitiu aos tripulantes da Cry of the Angelus identificar aquela área da Arcadia. Era a redoma que cobria grande parte da Éden Arbora, a versão Alpha do Jardim do Paraíso e o pulmão da Arcadia. Por baixo ficaria o reservatório de água que ocupava quase toda a zona a que se poderia chamar a quilha. A cidade administrativa possuía os seus módulos de ambos os lados da Arcadia, ali mais próxima da popa e da Torre. Aqueles três mil metros de extensão eram seus, encravados entre os três mil metros da área dos motores e a junção das cidades alta e baixa, à proa.
«E pensar que a Companhia pagou o seguro daquilo» desabafou Himikomori. «Agora é tudo nosso…»
«Não acho que aquela coisa pertença a quem quer que seja» disse Autumnsun. «Quanto muito, pertencerá ao turismo emergente do século 51. Vamos todos pagar balúrdios por uns diazinhos de férias passados na História de outras pessoas…» Autumnsun fitou Ellie, sentado a seu lado. «Não concorda, Professor?»
«Receio que tenha razão, Autumnsun» admitiu Ellie, com um sorriso triste. «Ainda me lembro de quando os mitos do passado, romantizados até à exaustão, ou escravidão, nos eram vendidos como algo realmente imaculado e intocável. O solo onde lançávamos as nossas fundações, a eterna pedra de toque sobre a qual construíamos as nossas vidas e os nossos dias.»
«Todos os mitos tornados reais e explorados como patéticos pontos turísticos para patéticos humanos em patéticas excursões de grupo» concordou Autumnsun. «Todos os mitos obrigados a pegar nas memórias dos seus tempos de glória e a vendê-las a preços módicos como souvenirs à Humanidade insensível e ignorante, sempre pronta a transformar a dignidade da História Universal em troféus de férias. Trágico…»
«Seja como for, este é um momento que nunca venderei ou desperdiçarei» disse Himikomori. «Hei-de conseguir sorrir às custas deste momento, sempre que me lembrar dele nas minhas horas mais melancólicas. Ficará comigo para sempre.»
«Estou bem mais interessado no que vamos encontrar lá dentro» disse Autumnsun.
05. “Realidade Latente”
O planeta vermelho era trinta e sete vezes maior que Júpiter, o que queria dizer que teria uma massa três mil quinhentas e quinze vezes maior do que a da Terra. Matemáticas que interessavam a Wormsong. A sua atracção gravitacional era terrível e os efeitos fizeram-se sentir assim que a Cry of the Angelus apontou a proa na sua direcção.
«Fableshade, preciso mais força» pediu Wormsong à colega da engenharia, sentada à direita de si. «Não quero tornar-me num cometa flamejante outra vez…»
«Certo.» Fableshade instruiu as fadas que estavam dentro do Plasmacore quanto às necessidades específicas daquela manobra. O rosto de Wormsong serenou quando ela sentiu que os motores já respondiam ao que lhes pedia.
«Isto vai ser nós contra as forças primordiais da astrofísica» disse Autumnsun a Himikomori, que estava sentada a seu lado. Himikomori olhou-o, receosa. Era apenas uma financeira à boleia numa missão de loucos. «Sinceramente, estou impaciente para ver quem ganha.»
«Sinceramente, Mr. Autumnsun, podia urinar pelas pernas abaixo neste momento…» confessou Himikomori, apertando as mãos entre as coxas.
«Não faz mal, Himikomori-san. Estes fatos podem absorver um dilúvio…»
Pela panorâmica, o grande planeta vermelho começava a encher todo o campo de visão. Três quintos já haviam sido ocupados, embora se conseguisse ainda ver, lá à frente, o planeta verde na órbita do qual a Arcadia deveria andar a brincar às escondidas com a Cry of the Angelus. A nave-soldado sofreu uma oscilação perceptível quando as forças de atracção do planeta vermelho a agarraram. Rawbone aproveitou para se sentar nos degraus que desciam para as plataformas inferiores do Cortex.
«Desliguem os instrumentos apenas quando todo o nosso campo de visão estiver ocupado pela superfície do planeta» aconselhou Greymalkin. Estava sentado no parapeito da plataforma inferior, mesmo junto à panorâmica, com Dreamfrost sentada junto de si. «Podemos imprimir um sinal holomático na panorâmica que se focalize nas coordenadas onde a Arcadia deverá aparecer quando tivermos completado a volta ao planeta? Para nos dar um ponto para onde todos nós olharmos.»
«Eu posso fazê-lo apenas depois de reiniciar o meu sistema de navegação» respondeu Stonewall.
«E pode imprimir um sinal na panorâmica para todos saibamos também para onde devemos olhar?»
«Sim, Doutor» Stonewall acenou afirmativamente a Greymalkin. «Se calhar, temos é de olhar para o sinal e fazer muita força para que a Arcadia apareça. É um bom método de nos pormos todos a rir.»
«Não será necessário extenuar os nossos esfíncteres» disse Greymalkin, «apenas temos de dirigir os olhos para o ponto objectivo. Uma mensagem de Muirwell conseguirá isso perfeitamente.»
«Façam de conta que a Arcadia está ali, porque está mesmo?» Perguntou Muirwell.
«Não, a Arcadia irá surgir naquele ponto quando aparecermos do outro lado do planeta e olharmos na direcção do sinal holomático que Mr. Stonewall nos fará o favor de colocar nas panorâmicas.» Greymalkin olhou para cima, para Evergrim. Queria saber o que a Senhora da Cry of the Angelus pensava de tudo.
«Muito bem, Doutor» disse Evergrim. «Vamos esperar que não se engane, porque se a Arcadia não aparecer no ponto para onde nos vamos pôr todos a olhar, não serei eu a apanhar com a onda de choque provocada pela desilusão que sentiremos.»
«Vai lá estar…» assegurou Greymalkin com um sorriso muito largo. Virou-se de costas, olhando para a panorâmica e sussurrou de uma forma que apenas Dreamfrost, ali ao pé, o pôde escutar: «Se conseguisse convencer todos a masturbarem-se furiosamente e a atingirem o orgasmo enquanto concentram a atenção no ponto assinalado, estaria bem mais confiante…»
«Ouvi-lo dizer isso deixa-me muito mais segura, Doutor» disse Dreamfrost, também em voz baixa. «Estamos a tentar passar a perna à Física Quântica do Universo com práticas tão primitivas como a magia negra…»
«Magia do Caos» corrigiu Greymalkin.
«Seja» respondeu Dreamfrost, soltando uma gargalhada imprópria, merecedora de olhares de alguns dos outros. Dreamfrost precisava desesperadamente de um cigarro. «Não faz mal. Nesta vida, tenho de roubar as minhas gargalhadas onde posso, por muito triste, patética ou irracional que possa parecer…»
O planeta vermelho eclipsou por completo todo o resto do universo na vista panorâmica do Cortex. Tudo o que se via agora eram nuvens escarlate revoltas que deviam originar duma atmosfera em efervescência que escondia o que quer que fosse que se passava lá em baixo. Uma circunferência mais escura no manto atmosférico indicava uma tempestade que deveria ter uma dúzia de vezes o tamanho da Terra. Mesmo do espaço podia ver-se a olho nu a velocidade a que aquele impressionante vórtice girava.
«Mr. Stonewall, Mr. Wormsong, desliguem os instrumentos quando eu vos disser» instruiu Evergrim. Olhou por cima do ombro para Rawbone. «Senhor, precisaremos de alguém que apague os registos de Mr. Wormsong enquanto ele está ocupado a voar manualmente. Se bem me recordo, o Senhor foi piloto de carreira e deve conhecer o equipamento…»
«Muito bem.» Rawbone levantou-se e desceu para a terceira plataforma. A consola gerava mais uma cadeira, se fosse necessário, e o Senhor ruivo da Shortcut Tango activou-a para se poder sentar ao lado de Wormsong.
«Mr. Wormsong, está preparado?» Perguntou Evergrim.
«Sim…» Wormsong suspirou. A sua pele de ébano brilhava já sob uma camada translúcida de suor. «Espero que vocês sejam todos tão dementes quanto eu.»
«Desliguem os instrumentos…» comandou Evergrim, depois de ter buscado um olhar de aprovação no rosto de Greymalkin. «…Agora.»
«Agarrem-se bem às vossas contramedidas urinárias» aconselhou Wormsong, num esgar entusiasta. «Esta viagem vai tornar-se agitada.»
A Cry of the Angelus debateu-se quando Wormsong se viu obrigada a comandar a nave apenas com a força dos seus pensamentos. Foi uma oscilação muito forte que levou todos a segurarem-se instintivamente a alguma coisa. Demorou uns seis segundos, durante os quais a Cry of the Angelus derivou na direcção do planeta vermelho até que Wormsong foi finalmente capaz de estabilizar o rumo e voltar a tomar o controlo da nave.
«Mais potência» disse ele de dentes cerrados.
«Fableshade, dá-lhe tudo o que ele precisar» pediu Stonewall. «Todos vocês, apaguem os vossos arquivos o mais depressa possível.» O navegador olhou sobre o ombro esquerdo, para os três civis que estavam na consola de ciências. «Esses também, por favor.»
«Hmm…» Ellie olhou para os instrumentos à procura as opções de acesso.
«Eu faço, Professor» disse Autumnsun activando algumas funções rapidamente.
Todos os operadoros do Cortex dedilhavam os ícones luminosos, apagando qualquer registo que pudesse dar informações já recolhidas sobre a posição da Arcadia aos sensores que esperavam pacientemente para voltarem a ser ligados. Muirwell apagou todos os registos de comunicações tentadas, enviadas e depois devolvidas, dos arquivos. Berrylight apagou as instruções que tinha dado às cargas de detonação, pelo sim e pelo não. Rawbone revia freneticamente os seus conhecimentos sobre os arquivos de pilotagem das naves-soldado e eliminava um a um todos dados referentes às coordenadas da Arcadia. Stonewall fazia o mesmo na consola de navegação.
Um ruído atravessou o Cortex, e todo o resto da nave, como um guincho horrível, quando as forças de atracção do gigante vermelho tentavam mais uma vez puxar a Cry of the Angelus para a sua órbita. Permaneceu audível durante longos instantes, como um fantasma premonitório. A nave da Schola Belicus voltou a derivar para o planeta e estremeceu uma vez mais. Parecia que os ventos diabólicos que governavam a atmosfera do globo se faziam sentir até ali, no extremo da sua influência orbital.
«Não é razão para alarmes» disse Stonewall.
Wormsong discordava na totalidade da afirmação do camarada. Por seu lado, estava muito alarmado. A transpiração pingava-lhe do nariz e evaporava-se em contacto com o seu monitor de luz semi-sólida, exalando um cheiro a fumo branco. Vinha-lhe à memória o episódio em que descera abaixo do cobertor de nuvens de Júpiter, durante noventa e dois assombrosos segundos. Mas nessa altura ele estava a voar um protótipo construído para o efeito, com todos os instrumentos do seu lado, além de se valer dum optimismo que só se verifica no rosto dos pilotos jovens. Mesmo assim, quase morrera naquele dia, quinze anos terrestres atrás. E não se lembrava como conseguira sobreviver àquela missão.
«Arquivos extintos» anunciou Stonewall. Olhou triunfalmente em volta, fora o primeiro a acabar aquela tarefa. Tudo para ele era competição. Descontrair era uma impossibilidade. Vivia assim. «Posso reiniciar os meus sistemas?»
«Não» quase gritou Greymalkin junto da panorâmica. «Têm de se ligar todos os sistemas ao mesmo tempo.»
«E depois é só masturbarmo-nos como doidos…» sussurrou Dreamfrost para si, começando depois a rir. Os ombros dela agitavam-se sob as suas gargalhadas abafadas às pressas. Sentia o vidro reatomizado vibrar ligeiramente. Julgava que isso não era possível. Que isso não devia acontecer. Que era mau sinal.
«A consola de ciências está em branco» informou Autumnsun.
«De armamento, também» ecoou Berrylight. «Tudo apagado da memória.»
O planeta vermelho rodava na direcção oposta à que a Cry of the Angelus se movimentava. Havia um problema. Se a nave completasse a volta antes que os sistemas a bordo fossem reiniciados a zero, aquele encantamento de Greymalkin poderia não dar resultado. Mas a Cry of the Angelus não poderia viajar mais devagar, pois seria tragada pela atracção gravitacional do globo e acabaria por ser destruída pela fricção quando entrasse na sua atmosfera.
«Comunicações prontas» disse Muirwell, olhando para a sua comandante.
«Já está» afirmou Rawbone, na consola de Wormsong. Afastou o cabelo ruivo dos olhos. «Arquivo de pilotagem esterilizado.»
«Pronto, preparem-se para reiniciar radiotelepaticamente todos os vossos sistemas quando eu vos disser» avisou Evergrim. Olhou para todos que lhe devolviam o olhar, expectantes. Encheu o diafragma. «Agora!»
04. “Realidade Eventual”
«Oiçam» disse Autumnsun, de joelhos sobre a cadeira para que todos o pudessem ver por detrás da parafernália da consola científica. Apontou a mão direita para a panorâmica. «Nós sabemos que a Arcadia está ali. É óbvio que está. Só não a conseguimos ver. Pode ser o resultado de um campo de distorção, como diz o Professor Ellie. Pode ser uma questão de deslocação temporal. Todos os nossos instrumentos parecem estar sintonizados numa frequência temporal diferente, que não está bem definida. Isso explicaria porque não conseguimos detectar a Arcadia em todos os sistemas ao mesmo tempo, e porque não a conseguimos ver com os nossos próprios olhos. Estamos todas dessincronizadas.»
«Eu… não sei se o estou a perceber, Autumnsun…» disse Stonewall, falando por uma grande maioria. «Como assim?»
«Estamos todos a olhar em frente e a ver tempos cronológicos diferentes» explicou Autumnsun, encolhendo os ombros. «Estamos a olhar para o tempo. Olhamos e não vemos lá a Arcadia porque a Arcadia não estava lá na altura. Percebem? Não estamos numa realidade de consenso porque temos dados contraditórios que nos chegam de instrumentos diferentes. Teremos de sincronizar os nossos esforços.»
«É uma hipótese» disse Greymalkin, lá em baixo, para Dreamfrost.
«O que é que é uma hipótese?» Dreamfrost olhou para ele, confusa. «Não percebi patavina do que Autumnsun disse.»
«Imagine que existe um objecto, vamos dizer uma montanha, vamos dizer uma montanha em Academia» exemplificou Greymalkin. «Se cada um de nós olhasse para ela pela primeira vez, sozinho, em diferentes alturas, veria uma montanha diferente. Ora com neve no topo, ora com nuvens a sobrevoá-la, ora encoberta pelo nevoeiro matinal. Seria essa a primeira impressão da montanha para cada um de nós. Certo?»
«Sim…»
«Agora, estamos todos juntas a olhar para a mesma montanha. Mas, devido a uma distorção temporal, cada um vê a montanha sempre tal e qual a tinha visto da primeira vez. Mesmo que as estações tenham já passado e que a montanha tenha agora um aspecto diferente. Mesmo que entretanto o topo da montanha tenha explodido com a força de um vulcão oculto. Estamos todos a olhar para uma montanha diferente porque estamos a olhar para trás no tempo, para o momento em que a montanha era exactamente como a vimos pela primeira vez.»
«Mas, se está a fazer uma analogia com a Arcadia, nenhum de nós alguma vez viu a Arcadia.» Dreamfrost abanou a cabeça.
«Precisamente» respondeu Greymalkin. «Nenhum de nós viu realmente a Arcadia. Desapareceu muito antes de termos nascido. É por isso que agora não a conseguimos ver. Todos nós temos uma ideia da Arcadia, que imaginámos através dos arquivos que vimos antes. Estou convencido que nenhum de nós tem uma mesma imagem da Arcadia na cabeça. Seria estatisticamente impossível. Logo, o Universo não consegue apresentar-nos um contacto visual que nos satisfaça a todos. Por isso, opta por manter a Arcadia oculta.»
«O quê?» Dreamfrost olhava Greymalkin sem saber se o psicólogo místico estava a falar a sério ou não. «A culpa é do Universo?»
«Sim.» Greymalkin acenou afirmativamente. «E da física.»
«Ah, bom» disse Dreamfrost, «então proponho que chamemos a Física à pedra e a obriguemos a explicar este novo método particularmente doentio de variações a sangue-frio da realidade. Ou então que responda às questões muito mais inquietantes que sinto que estou prestes a colocar, a plenos pulmões, diga-se, agora que se começam a manifestar os efeitos que a carência de um cigarro provoca sobre mim …»
«Sugiro que refinemos a sintonia da realidade de consenso» disse Greymalkin em voz alta, para todo o Cortex. Olhava principalmente para Evergrim, que era quem interessava mais. «Senhora, sugiro que tentemos uma via alternativa para este problema. Se estamos a olhar para pontos diferentes no tempo, como o nosso sensato amigo Mr. Autumnsun diz, e se temos os instrumentos da Cry of the Angelus a analisar um mesmo ponto do espaço, mas em alturas cronológicas distintas, a solução será apontarmos todos os sensores disponíveis e mesmo os nossos olhos, para um determinado ponto num determinado momento.»
«Acabo de perder a Arcadia nos meus sensores outra vez» anunciou Wormsong. «Vou fazer a aproximação ao planeta vermelho, mas depois de o termos passado, o melhor será que decidam muito rapidamente o que fazer.»
«Não tenho a certeza se percebo o que o Doutor está a dizer» admitiu a Senhora da Cry of the Angelus. «Não tenho a certeza se algum de nós percebeu.»
«Eu percebi» declarou Autumnsun. «Mas não sei bem como poderemos fazer o que o Doutor Greymalkin sugere.» Autumnsun olhou para o psicólogo, que estava na plataforma inferior do Cortex, de costas para a panorâmica por onde se podia ver o planeta vermelho tornar-se cada vez maior. «Doutor, como poderemos harmonizar a realidade de consenso dentro de um campo de deformação temporal? Os meus conhecimentos quânticos metem o rabo entre as pernas quando as coisas deixam de fazer sentido.»
«Precisamos de formatar as noções que temos neste momento» esclareceu Greymalkin. «Se continuarmos a olhar nesta direcção, a Arcadia nunca aparecerá no nosso campo de visão, mesmo quando a Cry of the Angelus a abalroar. É como olharmos para uma imagem holoestática de espaço vazio. Podemos olhar durante toda a eternidade, mas ela nunca se alterará porque é apenas uma impressão de um dado momento onde não existia nada para ver. Temos de parar de olhar e mudar de perspectiva.»
«Então pestanejamos?» Dreamfrost entrava em rota de colisão com a perda de compostura.
«Nada na vida é assim tão fácil…» disse-lhe Greymalkin, sorrindo.
«Temos de mudar a rota de aproximação» concluiu Ellie, lá de cima, percebendo finalmente. «É isso!»
«Isso por si só não nos resolve o problema» continuou Greymalkin. «Temos de renovar a nossa ideia da Arcadia estar ali ou não. Para isso, temos de lhe dar uma hipótese de aparecer ali, onde ela é suposta estar. Temos de fazer com que o ponto objectivo da Arcadia desapareça por momentos do nosso campo de visão para que, quando voltar a reaparecer, nós acreditemos que ela vai lá estar. Pestanejar simplesmente não irá reciclar a nossa visão. Temos de olhar para a Arcadia de outra posição.»
«Isso é um disparate pegado» disse Stonewall, «e muito pouco ou mesmo nada científico, se me permitem o conservadorismo. Os meus instrumentos…»
«Não confie tanto nos seus instrumentos, Mr. Stonewall» disse Greymalkin. «Até porque vamos ter de os desligar por momentos para depois ligá-los novamente, todos ao mesmo tempo.» Greymalkin aproximou-se da consola de Wormsong. «Acha que consegue pilotar esta nave manualmente?»
«Não será fácil» respondeu Wormsong, com o sorriso de quem aquela ideia agradava. «O pior que pode acontecer é morrermos todos numa bola de fogo e gases.»
«Isso não acontecerá, Mr. Wormsong. Confio plenamente nas suas capacidades.» Greymalkin espraiou então o olhar pelo Cortex, testando a verba de confiança de que ainda gozava entre os astronautas. Não seria muita. «O meu plano é astucioso.»
«Vamos ouvi-lo, Doutor» sugeriu Evergrim.
«O Universo pôs-nos este maravilhoso planeta vermelho à frente.» O homem extravagante que teimava em não se calçar indicou o planeta atirando o polegar para trás das costas. «Proponho que tiremos partido da sua conveniente presença. Alteramos a rota de forma a contornarmos a face oculta deste planeta. Isso fará com que o ponto onde a Arcadia está deixe de estar acessível no nosso campo de visão. Tudo o que veremos durante momentos será a superfície vermelha do planeta, conforme o rodearmos. Podemos utilizá-la como uma forma de esterilizar o nosso campo visual. Quando estivermos na face oculta do planeta vermelho, desligamos todos os instrumentos sensórios. Isto é importante. Damos-lhes tempo para apagar todos registos de sondagem que eles tenham feito, de forma a que da próxima vez que os apontarmos às coordenadas da Arcadia, os esforços dos nossos instrumentos não sejam sabotados pelos resultados das sondagens anteriores que não conseguiram uma posição definitiva.»
«Como se começássemos do zero» disse Evergrim, compreendendo a ideia.
«Sim, Senhora» confirmou Greymalkin. «Exactamente. Mas isso só não é suficiente. Temos também de sincronizar as nossas buscas pessoais. Temos todos de acreditar que a Arcadia estará ali à nossa espera quando aparecermos do outro lado do planeta vermelho.»
«Vamos desejar que esteja lá?» Fableshade cruzou os braços à frente do peito, descrente. «É isso? E isso fará o quê? Fará com que a Arcadia nos surja à frente, como por magia? Apenas com a força do pensamento positivo?»
«Não exactamente, Ms. Fableshade» disse Autumnsun. «A Arcadia está lá. Só temos de acreditar que vamos conseguir vê-la quando dermos a volta a este planeta.
«Não custa nada tentar» disse Himikomori, entusiasmada.
«É loucura!» Disse Muirwell.
«Experimentamos a ideia do Doutor Greymalkin» disse Evergrim, recostando-se por fim na cadeira. Sempre seria melhor que fosse outro a ter as más ideias. «Mr. Wormsong, altere o curso imediatamente. Vamos rodear o planeta.»
Wormsong encolheu os ombros.
«Toda a gente faça figas!»
03. “Realidade Improvável”
«Digam-me…» A pausa aqui servia para atribuir a Evergrim um peso intelectual que ela, muito provavelmente, não tinha. «De todas as vezes que obtivemos contacto nos sensores, o objectivo não se moveu?»
«Nem um mícron» respondeu o navegador.
«Mr. Berrylight, instrua as cargas a evitar essas coordenadas» ordenou Evergrim a Berrylight. «Transfira-as da consola de navegação para o computador de bordo da carga que for lançada contra o planeta verde. A carga que for para o planeta verde que dê uma volta mais longa.» Fitou Stonewall, triunfalmente. «Desta forma, mesmo que os sensores das cargas não detectem a presença da Arcadia, a rota delas rodeará o objectivo por defeito. Não há risco de atingirmos nada a não ser a superfície do planeta.»
«E a Fortuna?» Insistiu Stonewall.
«A Fortuna?» Exasperou-se Evergrim. O prazo esgotava-se ao ritmo da sua paciência. «Fazemos o mesmo, não acha?»
«O problema é que ainda não detectámos a Fortuna nos sensores» informou Stonewall. «Não fazemos ideia onde ela possa estar.»
«O radar não a assinala» corroborou Wormsong. «Ao contrário da Arcadia, que dá ideia de aparecer sempre no mesmo sítio, e desaparecer, a Fortuna ainda não apareceu nos nossos sensores. Nem uma única vez.»
«Tentámos determinar uma posição para a Fortuna» disse Muirwell, «através duma localização do ponto de retorno das nossas comunicações. Nós enviamos uma comunicação e ela é-nos devolvida, senhora, como já lhe disse. Todas as comunicações são devolvidas e ecoam nos nossos receptores em looping. Podemos detectar o ponto exacto de retorno, em que a comunicação atinge algo e regressa até nós.»
«Então, onde está a Fortuna?»
«Não conseguimos determinar uma posição» respondeu Muirwell. «Cada uma das nossas comunicações que nos é devolvida vem de um ponto de retorno diferente. Algumas nem parecem vir deste sistema solar.»
«E vêm de onde?» Evergrim abriu os braços ao operador de comunicações.
«Hmm... quer dizer...» Muirwell tornou-se muito vermelho. «As últimas vêm de sistemas no centro de Andrómeda... Mas não faz sentido porque nós não estamos a enviá-las para o centro da galáxia. Esta frequência é apertada. Pode alcançar alguns sistemas solares aqui nas margens deste braço de Andrómeda, mas as nossas comunicações nunca poderiam chegar tão longe nem tão depressa.»
«Oiça, Senhora, se posso interromper...» Ellie deixou a sua cadeira ergomorphica a rodar na consola científica e aproximou-se de Evergrim. «Parece-me óbvio que estamos a lidar com um campo de distorção espaço-temporal, que deverá estar localizado à nossa frente.» Ellie apontou para o ponto da janela panorâmica onde se podia ver o planeta verde aproximando-se ao fundo, «Bem ali.»
«Os nossos instrumentos detectariam, se fosse esse o caso» afirmou Stonewall, fazendo uma festa na sua consola iluminada. «Os campos de distorção são muito comuns em alguns pontos da Expansão Humana, e aqueles que não estão cartografados são facilmente detectáveis pelos nossos sensores.»
«Os campos naturais, sim, tem toda a razão» admitiu Ellie. «Mas eu estou capaz de apostar a minha reputação quando digo que a Arcadia estará a gerar este campo de distorção.»
«Um campo de distorção artificial» especificou Autumnsun. «Para quem não percebeu à primeira...»
«Um campo de distorção espaço-temporal artificial?» Evergrim abanou a cabeça veementemente. «A ciência nega que isso seja possível.»
«A ciência é uma idiota» respondeu Autumnsun secamente, «que está sempre a desmentir-se. Aconselho-a a desarmar as cargas, Senhora Evergrim. Podemos discutir a teoria do Professor Ellie depois, com mais calma.»
Evergrim fitou Autumnsun. Ela sabia precisamente o tempo que tinha para dar a ordem a Berrylight. Ou de lançar as cargas ou de as desarmar. A indicação sonora ressoava na sua cabeça, monocordicamente, segundos a decrescer. Havia ali uma tomada de posição. Evergrim estava a dizer a todos que era ela quem mandava ali. A voz na sua cabeça disse vinte segundos, e depois dezanove. Sem emoção. Quase todos os astronautas se moveram desconfortavelmente nas cadeiras em uníssono. Se as cargas detonassem a bordo da Cry of the Angelus, o mais certo seria que boa parte dos sistemas, ou mesmo todos, se desligassem numa questão de milésimos de segundo. Todos a bordo experimentariam a sensação de tentar respirar num ambiente igual ao do espaço exterior, talvez um pouco mais ameno, mas onde o oxigénio seria uma miragem, mesmo antes dos olhos de todos explodirem para fora das órbitas ao som de pequenas detonações festivas.
Dez segundos. À excepção de Autumnsun, que era Alpha-Sapiens e não enjeitava a hipótese de verificar in loco até onde iam os limites da sua fisiologia avançada, os nervos de todas as outras presentes no Cortex estavam de tal forma esticados que teriam rangido à mais pequena brisa.
«Mr. Berrylight, desarme» disse Evergrim.
Berrylight procedeu à ordem mental, e só suspirou de alívio quando o computador lhe disse que as cargas de repetição tinham sido devolvidas aos invólucros, até uma próxima oportunidade.
O planeta azul ficara para trás. A Cry of the Angelus rodeava o globo seguinte, amarelado, que era envolto em anéis de asteróides que o circundavam num eixo quase vertical. Wormsong, atento a cada um dos pequenos corpos celestes, fez a nave-soldado passar, talvez, um tudo-nada demasiado próxima. Por gozo. Trocou um sorriso manhoso com Fableshade. A chefe de engenharia traduziu-o para um esgar crítico, e a coisa ficou por ali.
A paisagem disponível na panorâmica do Cortex era impressionante. Dreamfrost observava-a com o rosto encostado ao vidro reatomizado, sem realmente o sentir de encontro à sua pele. Se esticasse a mão através do vidro, a jornalista venusiana julgava poder tocar nos asteróides, ou enredar os dedos na redoma de nuvens de aspecto doentio do planeta amarelado. Virou-se para encarar Greymalkin.
«Receio que estejamos metidas num sarilho» disse Dreamfrost, levando uma mão ao ventre. «Já o cheiro. É o instinto jornalístico a tocar tambor nos meus ovários. Cada um dos meus óvulos sabe que estamos metidas num grande sarilho. Revoltam-se com malevolência e apreensão.»
«Não lhes dê importância, Ms. Dreamfrost» aconselhou Greymalkin, com um sorriso sob o bigode deslocado e um sotaque carregado que só adicionava pontos ao seu encanto sobrenatural. «Está apenas nervosa. Duvido que sinta alguma coisa, além de uma ligeira privação de nicotina.»
«Nem toque nesse assunto» pediu Dreamfrost, com uma cara feia. Precisava de um cigarro. Um cigarro era tudo o que naquele momento a separava do histerismo. Mas não se podia fumar no Cortex. Regulamentos.
«Muito bem» disse Evergrim do seu trono na plataforma superior. «A Arcadia está a causar este… campo artificial. Pode fazer uma coisa destas? Mais alguém nesta sala está disposta a apostar a sua reputação na teoria do Professor Ellie?»
«Bem…» Fableshade ergueu o braço como se estivesse numa sala de aula. «A tecnologia Alpha de 4E é diferente da nossa. É possível… Se me desse uns vinte ou trinta anos para que eu pudesse pesquisar a fundo todos os esquemas técnicos que os Alphas nos cederam, eu poderia ter a certeza…»
«Tens uns dez minutos, no máximo» replicou Wormsong, do posto de pilotagem. «Se a Arcadia está realmente ali, e não a conseguimos ver, podemos estar a voar de encontro a ela sem o sabermos. Vamos todos aninhar essa noção nos braços…»
«As informações da Fortuna diziam que a Arcadia estava completamente imóvel e inactiva» lembrou Rawbone. Pelo canto do olho, o Senhor da Shortcut Tango captou um vislumbre de Autumnsun a acenar em concordância. «Se está inactiva, como poderia gerar um campo artificial?»
«Partimos há trinta e um dias» disse Stonewall. «Muita coisa pode ter acontecido entretanto. Não conseguimos contacto com a Schola Belicus, estamos demasiado longe. Se nos foi enviada alguma comunicação pertinente enquanto estivemos em 4E, podemos ter de esperar muitos dias até que nos alcance aqui no extremo de Andrómeda.»
«Talvez a Arcadia tenha despertado» sugeriu Ellie.
«Se fosse esse o caso, estaríamos a vê-la daqui» disse Wormsong, apontando para o planeta verde que se via ao fundo pela janela panorâmica. «De todos os relatos que temos, de há trezentos anos, das presenças da Arcadia em órbitas da Expansão, nunca se falou de nenhum efeito de distorção. O que se dizia na altura era que olhavam para o céu e lá estava ela, brilhando como uma pequena estrela. Se a Arcadia estivesse activa, já a tínhamos visto, e os sensores da Cry of the Angelus já teriam captado os seus níveis de energia. Não nos podemos esquecer que aquela coisa usa uma estrela-bébé como fonte de energia.»
«Tenho-a nos meus sensores!» Exclamou Harlownet, subitamente. «No ponto determinado, como das outras vezes. Stonewall?»
«Nada» respondeu Stonewall. «Não tenho nada no monitor.»
«Está mesmo ali!» Insistiu Harlownet. Limpou o suor da testa com o antebraço, e apontou para a panorâmica. «Mesmo à nossa frente!»
«Não digo que não acredite, mas continuo a não ter nada» voltou a responder Stonewall, olhando para a colega sentada na consola ao lado.
«Não a vejo» disse Dreamfrost, estreitando os olhos numa tentativa infrutífera de captar aquilo que os instrumentos pareciam não conseguir. Apenas se via o planeta verde-escuro, para lá de um outro, avermelhado, que se aproximava.
«Não está lá nada» ecoou Evergrim. Tinham-se-lhe acabado as ideias. Não era a única. Os astronautas olhavam uns para os outros parecendo perdidos.
02. “Realidade Contingente”
«Talvez a Arcadia esteja do outro lado...» Especulou Evergrim da sua consola.
«As coordenadas enviadas pela Fortuna diziam que a Arcadia estava nesta face do planeta» respondeu Stonewall. «E os nossos sensores captaram a sua posição exactamente onde os relatos da Fortuna diziam que a Arcadia estaria.»
«Mesmo quando os instrumentos assinalam a sua posição» acrescentou Rawbone, ao lado de Evergrim, «continuamos sem conseguir um contacto visual. Como se não estivesse lá nada.»
«Não poderá ser uma distorção visual causada pelo reflectir do brilho da estrela deste sistema por parte deste planeta azul?» Evergrim indicou com o braço o planeta próximo que, à esquerda, ocupava um quinto da panorâmica. Podia ver-se os perfis de dois dos continentes daquele globo, um deles recortado parcialmente por um golfo enorme.
«A Cry of the Angelus tem instrumentos que compensam esse factor» indicou o pluridiplomado Autumnsun, a sua voz aparecendo do nada, talvez inconvenientemente. Afinal, aquela era a nave de Evergrim, não a dele. Seria de esperar que a Senhora soubesse das capacidades da nave que comandava. Seria arrogância do académico pensar o contrário. Mas pensava.
Evergrim olhou-o muito pouco agradada. Autumnsun não desviou o olhar. Não até que Himikomori, muito subrepticiamente, lhe deu um toque no ombro. O momento pendia para a desgraça de egos frágeis quando um alerta de Muirwell o quebrou.
«Tenho um objecto no ponto de rendez-vous outra vez!» Havia excitação na voz dele, que era um terço histeria. Transferiu os dados para o mapa holomático sem esperar por instruções de Stonewall. Radiotelepatia a dedilhar ordens para a consola. «No mapa.»
Toda a gente olhou para cima, e viu que a posição era a mesma. Depois, diversos pares de olhos, alguns deles aperfeiçoados ciberneticamente, apontaram em frente, através da janela panorâmica da Cry of the Angelus que ficava mesmo à proa. A nave estava apontada a direito ao ponto de encontro com as alegadas coordenadas da Arcadia, numa perspectiva perfeita e completamente limpa até ao planeta verde-escuro.
«Alguém consegue ver a Arcadia?» Quis Stonewall saber o que já sabia.
As respostas foram todas negativas. Ninguém via a Arcadia. No entanto, os sensores continuavam a dizer que algo enorme estava ali, mesmo à frente delas. Apenas se mantinha misteriosamente invisível.
«Não a tenho nos meus sensores» anunciou Wormsong, da consola de piloto. Soltou um suspiro que se ouviu em todo o Cortex. «Não sei o que se passa, mas não me agrada muito conduzir esta nave através do espaço, se anda alguma coisa lá fora que simplesmente aparece e desaparece.»
«Perdemos o sinal» disse Stonewall. «Wormsong?»
«Não o tenho» respondeu o piloto.
«Alguém se lembrou de contactar Athena?» Disse então Evergrim, começando a sentir-se impaciente. Não lhe agradava a ideia de ter viajado trinta e um dias em 4Espaço até aos confins de Andrómeda apenas para ter de dar meia volta de mãos a abanar.
«A última comunicação que a Schola Belicus e a Fundação tiveram com a Fortuna antes de partirmos dizia que Athena tinha posicionado a sua nave aqui.» Stonewall activou um clarão no mapa holomático, que ficava na face visível de uma das luas do planeta verde, a maior delas. «De onde estamos, a Cry of the Angelus não tem uma perspectiva correcta para estabelecer contacto visual, mas os nossos instrumentos de comunicação estão perfeitamente ao alcance da Fortuna.»
«E então?» Evergrim abriu os braços, impaciente. «Estamos à espera de quê?»
«Temos estado a tentar desde esta noite» revelou Muirwell, da consola de comunicações. Parecia preocupado em tentar esconder um sorriso que dizia que se a Senhora estivesse no Cortex desde que as operações de aproximação se haviam iniciado, seguramente já não faria aquelas perguntas. Ou talvez Muirwell estivesse realmente preocupado com aquela situação. «Não obtivemos respostas da parte da Fortuna até agora. Apenas um estranho eco. Como se as nossas comunicações fossem devolvidas em loopings.»
«Poderemos estar a sofrer alguma interferência?» Interrogou-se Evergrim «Mr. Stonewall, procurámos sinais da presença do logovirus neste sistema solar?»
«Não detectámos nada» respondeu o navegador. «Tanto quanto os nossos instrumentos nos dizem, este sistema está livre do logovirus.»
«Pronto a ser explorado por quem cá chegar primeiro» sussurrou Himikomori para Autumnsun e Ellie. Sorria lucrativamente, apesar de começar a começar também ela a inquietar-se com aquela situação. «A Companhia pode erguer uma pequena colónia com todas as infra-estruturas e confortos básicos em seis dias. Lucro instantâneo.»
«Basta juntar água» gracejou Autumnsun.
«Não era a primeira vez que o logovirus passava despercebido aos sensores» disse Rawbone. «Algumas células têm tecnologia de camuflagem bastante avançada. Usam-na para perturbar os nossos instrumentos, certo?»
«É verdade...» concordou o Professor Ellie, fitando a Senhora da Cry of the Angelus. «Podem ter já chegado até estes sistemas nas espirais externas de Andrómeda. Ninguém sabe dizer muito bem até que pontos do Universo o logovirus já chegou…»
«Mr. Berrylight» disse Evergrim, de repente inspirada, «arme umas das suas cargas de repetição e prepare-se para as lançar. Uma por cada planeta e lua deste sistema, à cautela.»
«Senhora!» Berrylight endireitou-se na cadeira como se tivesse acordado agora mesmo de um longo período de letargia, mas apesar disso, cheio de vida. «Armando...»
«Acha que é uma acção adequada?» Autumnsun colocou a questão da única forma diplomática que conhecia. Mesmo assim, Evergrim esteve a uma ou duas rugas de amuar.
«Se o logovirus se instalou realmente neste sistema, as cargas de repetição podem levá-lo a revelar-se» explicou Evergrim. «Ficamos a saber se está a interferir com os nossos instrumentos ou não.»
«O que é uma carga de repetição?» perguntou Himikomori a Autumnsun, ou a Ellie, fosse quem fosse que lhe respondesse primeiro.
«É uma excepcionalmente má decisão da parte da nossa Senhora» respondeu secamente Autumnsun, em voz baixa. Evergrim estava a poucos metros dela, mas não a ouviu.
«É uma espécie de bomba negativa que cria campos onde toda a actividade electrónica é anulada» explicou Ellie. «É o passo que a nossa indústria de armamento deu depois que a controversa tecnologia de pulso electromagnético deixou de funcionar contra os logovirus. Chamam-se cargas de repetição porque o engenho tem a capacidade de detonar várias vezes. Detona num primeiro ponto, viaja até o objectivo seguinte e detona novamente, e vai repetindo este processo até esgotar toda a carga nas suas baterias ou ser ela mesma afectada pelos efeitos de uma detonação sua.»
«Foi a Companhia que a inventou?» Perguntou Himikomori.
«Foi a Schola Belicus» elucidou Ellie.
«Não desperdice a sua inveja, Himikomori-san» aconselhou Autumnsun, com um trejeito de desprezo. «É uma péssima noção de guerra ao logovirus. Tudo o que tem que fazer é interferir no sistema de rumo das cargas de repetição e editar-lhes a rota. Atraem a bomba negativa de volta a uma área já detonada, e aquilo simplesmente desliga-se quando entra num dos seus próprios campos nulos. Ou pior, enviam-na na nossa direcção, anulando sistemas de suporte de vida das nossas naves ou os sistemas de armamento.»
«Sim» Ellie acenou afirmativamente. «Mas se alguma das bombas negativas que a Cry of the Angelus lançar se desligar, saberemos se existem ou não logovirus neste sistema.»
«Duvido muito que existam» declarou Autumnsun. «O que se está a passar não tem nada a ver com viroses celestiais.»
«Então, o que se passa, Mr. Autumnsun?»
Himikomori olhou para Autumnsun, que apenas encolheu os ombros como se não soubesse realmente. Não foi um encolher de ombros que convencesse Himikomori. Autumnsun, talvez não soubesse ao certo, contudo tinha uma ideia sobre o que se passava. Mas disfarçou, parecendo muito interessada no diálogo esgrimido entre Stonewall e Evergrim.
«Estou apenas a dizer que se a Arcadia está algures lá fora e nós não a conseguimos ver» esclareceu Stonewall, «porque os nossos instrumentos estão com dificuldades em determinar a sua posição. A possibilidade de alguma das cargas de detonação entrar em contacto com a sua estrutura não deve ser ignorada. E não podemos correr o risco de atingir a Fortuna, também.»
«As cargas têm todas sistemas de correcção de rota» respondeu Evergrim, com maus modos. «Esse problema não se põe…»
«Acho que não devemos confiar nos nossos sistemas, neste momento» insistiu Stonewall. Naquele momento, o navegador desejava estar bem longe dali, para não ter de forçar aquela conversa com a sua superiora, à frente do resto da tripulação e, pior ainda, de civis convidados. «Até percebermos ao certo o que se passa com eles, acho que não devemos confiar nos nossos sensores. Concorda comigo?»
A Senhora recostou-se para trás e pensou por breves instantes. Infelizmente, havia ali uma lógica que era irrepreensível. Amaldiçoou-se de passagem por não ter pensado naquilo antes de pedir à operadora de armamento que armasse as cargas. Berrylight olhava-a, suspenso. Depois de armadas, as cargas de repetição tinham de ser lançadas ou desactivadas. Existia um prazo que se expirava enquanto Evergrim pensava numa forma airosa de sair daquele debate. A solução surgiu-lhe na mente com a pujança das boas ideias. Olhou para Stonewall, duas plataformas abaixo, que também aguardava ordens.
01. “Realidade Consensual”
Evergrim, a Senhora da Cry of the Angelus pensou no seu lar no Refugium, só por um instante, e em como fora maravilhoso quando levara o marido até lá pela primeira vez. Da janela o sol punha-se de uma forma tão sensual. Ficava ali, a disparar raios de luz que se podiam apanhar um a um, e entregar ao amado como presentes que o próprio Eros fizera à mão. O sol ficava ali, só por um instante.
Evergrim fez-se ao quarto de banho dos aposentos com a calma habitual, e absorveu um vislumbre de si própria nos grandes espelhos activos. Gravou-o no arquivo, para a posteridade. Vaidade. Parecendo muito bem no uniforme de Senhora, azul e negro, uma lista amarela a relampejar ao longo do peito discreto e daí até à anca direita. Não usava o uniforme muitas vezes, mas quando o fazia, fazia-o a preceito. Deu aquele toque no cabelo dourado. Encontrou a imagem que procurava. Uma nova atitude mental, uma inteligência gelada entrou nos seus olhos. Até a sua postura se alterou ligeiramente, tornando Evergrim ainda mais poderosa.
Caminhou sobre os saltos altos que a faziam parecer mais alta do que os cento e setenta e cinco centímetros que o DUCIS seleccionara para si. A ciência eugénica havia sido mais generosa com ela. Os papás tinham sido políticos de carreira, tal e qual Evergrim esperava vir a ser um dia em breve. Dois anos para completar o serviço militar. Planeava candidatar-se à Autoridade assim que deixasse a Schola Belicus com um currículo invejável. Planeava ganhar e alterar de raiz a mentalidade reinante no Refugium. A dissidência intelectual fora chão que dera uvas. A conformidade era o futuro que renderia votos.
A porta que dava para o Cortex ficava à esquerda. Mesmo à sua frente estava uma janela aberta para o universo conhecido. As estrelas enviavam a sua resplandecência complacente através do tempo para a cumprimentar. Evergrim ignorou aquelas boas-vindas. Parecia uma zona esconsa do universo, mas não fazia mal. Manhã luminosa. Iria ser um bom dia. Através do interface do seu uniforme, ordenou à porta que desagregasse as suas moléculas para lhe dar passagem. Entrou no Cortex a tempo de ouvir o tom irónico de alguém, que não conseguiu identificar, dizer:
«É Stonewall quem manda aqui. Vejam como transpira. É o esforço de fingir que não é ele a mandar…»
Quem quer que fosse, calou-se quando provavelmente a viu entrar no centro de comando da Cry of the Angelus pelo acesso directo dos seus aposentos. Rawbone, comandante da Shortcut Tango, viu-a chegar e levantou-se da sua consola, com um aceno. Evergrim não reparou no aceno e muito menos em Rawbone, que não era da sua tripulação. Olhava em volta. Em dezanove anos de serviço naquela nave, nunca antes havia visto tanta gente a deambular pelo Cortex.
Além das operadoras do Cortex, vestidas em azul e magenta e sentadas nas suas consolas, alguém tinha dado autorização às passageiras civis para subirem ao piso um da nave e presenciarem em primeira-mão a aproximação da Cry of the Angelus à Arcadia. O Professor Ellie empoleirava-se na consola científica que ficava na mesma plataforma que o posto de Evergrim, exactamente à sua esquerda. Com ela estavam o diminuto Autumnsun, na cadeira, sentado sobre as pernas, e Himikomori, o estonteante fardo depositado nas mãos de Evergrim pela Companhia. Algo a ver com seguros. Todos envergavam um uniforme parecido com o dos oficiais, em cinzento azulado. Falavam em voz baixa mas fizeram silêncio quando a Senhora da Cry of the Angelus se aproximou para ocupar o seu lugar. Um silêncio que pareceu demasiado coreografado e não agradou nada a Evergrim. Endereçou o olhar a Ellie através do espaço vazio entre as duas consolas.
«Bom dia, Doutor…»
«Senhora» disse Ellie.
Evergrim observou-o. Ainda mal refeito do desgosto de amor ocorrido dias antes. Não era problema seu. Ellie havia sido atraído para fora da toca pelo doce aroma de mistério, pela vontade de fazer parte de um momento que se adivinhava histórico. Era para isso que todos estavam ali. Assinar o nome no lume das estrelas.
Rawbone estava de pé do outro lado, olhando para a janela panorâmica que se estendia desde a base do Cortex até cobrir boa parte do tecto. Repetiu a saudação formal a Evergrim. Rawbone era apenas três anos mais novo que a Senhora. Isso e o facto de estar na nave de Evergrim conferia-lhe um estatuto inferior a bordo, apesar de partilharem a mesma patente.
Evergrim olhou em frente. Na plataforma seguinte, imediatamente abaixo havia quatro consolas. Harlownet, uma das poucas tripulantes da Cry of the Angelus com quem a Senhora simpatizava, nos sistemas de suporte de vida. Muirwell, nas comunicações, experimentava alguns problemas e o seu rosto eternamente por barbear exprimia toda a sua diligência para os resolver.
Stonewall, o navegador, na consola abaixo da de Evergrim, ia coordenando o rumo. Corria os dedos pelo seu cabelo preto, parecendo genuinamente confuso. Por fim, o entroncado Berrylight parecia ser o elemento mais redundante. Era quem operava o sistema de armamento onde não existiam gatilhos que se premissem.
Na plataforma seguinte, mais abaixo, Wormsong sentava-se no lugar do piloto na consola da esquerda com gotas de suor a deslizarem pela sua fronte tatuada enquanto com a força do pensamento conduzia a Cry of the Angelus através do espaço. Fableshade, a veterana chefe de engenharia ocupava a última consola do Cortex. Comunicava por radiotelepatia com as fadas imersas no Plasmacore.
Abaixo do último nível da plataforma de consolas do Cortex, junto à base da panorâmica, o psicólogo Greymalkin e a potencialmente perigosa jornalista independente Dreamfrost, trocavam ideias enquanto iam olhando para o universo à sua frente. Evergrim não conseguia lembrar-se de cor nem quais nem quantos eram os artigos do regulamento que a presença daquelas duas violava. Havia outros assuntos importantes em mãos além de se importar com a excepcional presença no Cortex da sua nave de algumas da mais recente equipa de cientistas e intelectuais extrovertidas, arrogantes, desbocadas e emproadas. Olhou para a frente, numa perspectiva descendente, para o seu navegador.
«Onde estamos nós agora, Mr. Stonewall?»
«Hum…» Stonewall parecia perdido, e a sua voz mais rouca do que o habitual. «Senhora, eu sei onde estamos. Uma qualquer galáxia torpe que roda para todos os lados ao mesmo tempo… o problema nem é esse.»
«Mr. Stonewall» disse Evergrim severamente, «eu deixo a si e aos outros à vontade no Cortex durante a maior parte do ridículo tempo que missões como esta demoram. Não me interessa o que fazem aqui quando não há nada para fazer. A única coisa que espero quando entro é que sejam senhores das vossas intermináveis certezas.»
«Certo, Senhora. Hmm…»
O navegador activou uma função de holometria que projectou acima das consolas um mapa explicativo do seu problema. Viam-se alguns sistemas solares próximos, e o mapa incidiu o seu foco num em especial, com doze planetas, todos eles entre vinte a trinta vezes maiores que Urano, de cujas vizinhanças viera Stonewall. O mapa era facilmente correspondido com a paisagem que se via através da panorâmica. Lá estava o enorme planeta azul cruzado por faixas brancas, algumas das suas luas visíveis dali, e mais adiante, outros planetas.
«Segundo as coordenadas da Fortuna, a Arcadia estaria estacionária aqui.» Stonewall fez brilhar um ponto no mapa que seria o terceiro planeta para lá do azul de que a Cry of the Angelus se aproximava. «Eu já apanhei um objecto nos instrumentos de radar, várias vezes, e Mr. Wormsong também. Mas nunca ao mesmo tempo. Quando tenho o que deverá ser a Arcadia, ou algo tão grande como a Arcadia, assinalada no meu monitor, precisamente onde da Fortuna disseram que ela estaria, Mr. Wormsong não tem nada nos sensores dele. E vice-versa.»
«Façam uma verificação da validade dos instrumentos» sugeriu Evergrim, no tom de que até uma criança, nem sequer muito esperta, poderia ter pensado naquilo. No tom de que sequer sugeri-lo era algo que uma Senhora não deveria ter de se dar ao trabalho de fazer.
«Já o fizemos várias vezes» informou Stonewall, virando-se para trás para encarar a sua superiora. «A primeira hipótese que colocámos foi a de algo ter acontecido durante a ejecção que possa ter danificado os nossos sensores e criado alguns problemas de conflito nos sistemas. Mas os instrumentos estão a funcionar perfeitamente. O problema vai além de uma possível falha de instrumentos.»
«Como assim?» Evergrim inclinou-se para a frente na sua cadeira, desviando a sua consola para o lado. Ainda não se incomodara ao ponto de a ligar. Raramente o fazia.
«Mr. Wormsong tem levado a Cry of the Angelus num rumo perpendicular na direcção do ponto onde as informações que recebemos da Fortuna dizem que a Arcadia está» explicou o navegador. Virou-se para apontar um ponto no mapa holomático. Um pequeno clarão azul despontou aí, activado pelo dedo indicador da luva direita de Stonewall. «A Cry of the Angelus. Como pode ver, estamos num curso de linha recta na direcção do objectivo. Mesmo com os instrumentos a flutuar como estão, sempre que assinalaram um objecto na posição relatada da Arcadia, a posição foi sempre a mesma. Aqui.» Stonewall reavivou a luz do ponto próximo do terceiro planeta a seguir ao gigante azul de cuja influência orbital Wormsong tentava fazer a Cry of the Angelus escapar-se. «Do ponto onde estamos, com ou sem os instrumentos, já deveríamos ter contacto visual com a Arcadia.» Stonewall apontou para a janela panorâmica. «Mas, se olhar lá para fora...»
«Realmente» disse Evergrim intrigada. Esticou o pescoço para diante tentando perscrutar a paisagem que tinha à sua frente. Via-se o tal planeta, verde-escuro, ao fundo, mas nada mais além disso.
Voltar ao início, sei.
Voa, foge e vai para longe o tempo.
O sopro leva a vida num segundo.
Um século é uma hora.
E sinto-me findar em cada dia.
Sei.
Mas o que sinto não é o que sei.
Voltar, volto.
Sentir não sei.
Penso,
Vejo e antecipo
Que voltarei.
O som inquietante de múltiplos mastigares de boca aberta reclamou para si a tarefa de preencher o vácuo deixado no quarto pelo silêncio incómodo que se seguiu à última coisa que Pace tivera o desplante de dizer. Worms estava agitado. Quando a múmia se agitava, agitavam-se também as mandíbulas que inexoravelmente o iam devorando. A sua exaltação dirigia-se ao homem do chapéu de abas largas que acabara de dizer, muito tranquilamente, que Worms não passava de uma personagem enjeitada perdido numa história mal contada de algum “criador” inapto. Se não fosse pelos trapos imundos que lhe cobriam o rosto, Pace e a companheira poderiam apreciar toda a beleza ferina do seu sorriso de escárnio, e do arreganhar de todos os dentes que nesse sorriso viviam.
- Estou a rir-me por dentro – garantiu Worms numa rosnadela que era novidade para os outros, – das asneiras que está para aí a falar. Estou a rir-me às gargalhadas.
Pace conservou o silêncio. Compreendia que a sua teoria pudesse desinquietar os outros. Por essa razão nunca antes a tinha verbalizado. Era um assunto delicado de abordar com terceiros. Mais apropriado a ser debatido de si para si, na segurança relativa das suas ideias. Era melindroso, aquele assunto dele. Tinha potencial para causar enorme desgosto a quem o ouvisse e virar os outros contra si. Observou Bliss, que estava invulgarmente calada. Olhava-o sem dizer nada. A sua expressão era uma de indecisão. E ressentimento.
- Porquê o seu mundo, Pace? – Perguntou Worms. - Porque é que só o seu mundo é o real e os nossos são as histórias?
- Até onde podem recuar nas vossas lembranças?
- Eu… – Worms coçou a cabeça.
- É mais velho que eu, Worms. Deve ter lembranças de como o… – Pace quase dissera “seu mundo”, – …mundo era quando era criança.
- Eu… Esqueci-me muita coisa desde que cheguei. É este lugar, este Motel. Baralha-nos as ideias e…
- Algum de vocês se lembra de ter visto o sol? Como eu vi? Ou de viver num mundo diferente, antes deste? As minhas memórias…
- Não são de fiar – completou Worms. – Você disse que não punha as mãos no fogo por elas. Nunca ouvi essa expressão antes, mas consigo perceber muito bem o que quer dizer. Sei o que quis dizer porque as minhas também são… incertas. Às vezes lembro-me de coisas que não sabia que tinha esquecido, e depois, e depois esqueço-me dessas também.
- Também me acontece – confessou Pace com um meneio.
- E então? – Worms dedilhou as costas da cadeira, a precisarem de verniz, demasiado agitado para se voltar a sentar. Apontou um dedo ao homem alto. – Não sou de faz-de-conta, Pace. Não sou uma personagem. Sou um homem. – Abriu o roupão como que para comprovar que o era. – Tenho carne e ossos. E tenho dentes que magoam demais para ser só imaginação. Minha ou de quem quer que seja. – Olhou para a outra pessoa de carne e osso presente no quarto. – Bliss, diga-lhe. Diga-lhe, por favor. Diga-lhe que é real.
Bliss não o ouvia.
- Somos todos reais – disse Pace, perante o silêncio demorado da companheira. – Não importa de onde originámos. O mundo está de tal forma que agora somos todos reais aqui. Reais e, talvez, imaginários. Como a miúda que ainda não se calou desde que chegámos. Como as pessoas que a estão a torturar. Estou apenas a dizer…
- Disparates – talhou Worms. Depois, repetiu num sussurro a palavra para si próprio como se estivesse a tentar convencer uma criança pequena de que não havia motivos para preocupações. – Disparates…
A conversa parecia terminada. Pace tirou o colt que pertencera a sua mãe do coldre que trazia a anca direita e premiu a mola para destacar o cilindro, verificando as cápsulas no seu interior. Seis cartuchos vazios que ele derramou no monte de peças inutilizadas do braço perdido. O latão das cápsulas ocas trinou de encontro ao metal dos fragmentos mecânicos deixados sobre a colcha. Pace tirou, uma a uma, seis balas do cinto de munição que trazia à bandoleira por cima do colete e, uma a uma, inseriu-as no tambor do revólver. Voltou a fechá-lo, ouvindo o clique metálico familiar. Já não lhe restavam muitas balas. Nem grandes esperanças de poder vir a encontrar mais no caminho. Acariciou a madeira do punho. O toque de Bliss tinha destruído a gravação e arruinado a suavidade do acabamento. Tentou afastar a sensação impertinente de que em breve se esqueceria das letras e das figuras que estavam gravadas na madeira. Foi um instante de desconforto, após o qual efectivamente se esqueceu. Apanhou-se a olhar para o punho da pistola. Guardou-a no coldre, ocultando-a com a gabardina, não pensando mais nisso. Quando levantou os olhos, Bliss ainda o olhava fixamente.
- Quando me encontraste na caravana… – disse ela, – agiste como se me conhecesses…
Pace respirou pesadamente.
- Sim.
- Conhecias-me de… Sou… – Bliss precisava de saber a resposta para aquela questão mais do que tinha vontade de a colocar. – Sou uma personagem de alguma história que tu leste?
O único olho que restava a Worms abriu-se mais na direcção dela.
- Não me diga que vai na conversa tola do seu amigo?
- Bliss, ouve…
- Não! – Worms voltou a interromper Pace. – Não o ouça. Não o ouça, Bliss.
Bliss olhou para o homem mumificado. Apenas o olhar foi o que chegou para remeter Worms a um silêncio apressado. Até as bocas dele pararam de mastigar. Ela pode voltar-se para Pace, segura de contar com a sua honestidade.
- Apareci nalgum livro que leste?
- Não – disse-lhe Pace.
- Mas reconheceste-me?
- Sim.
- Desembucha, Pace. Acabaste de dizer que eu sou feita de faz-de-conta. Que invadi o teu mundo e dei cabo de tudo o que tu conhecias. Quero saber como sabias quem eu era.
- Não sabia – respondeu Pace. – Reconheci-te porque… porque és igualzinha a uma actriz de cinema muito famosa no meu mundo.
- Actriz de cinema? – A pergunta de Bliss era apenas um eco da resposta de Pace. Pareceu reflectir na resposta durante os longos momentos que se seguiram. Depois, o semblante dela mudou e uma réstia de esperança monopolizou-lhe as linhas suaves de um rosto que era muito bonito. – Então, porque é que eu não posso ser essa… essa mulher? Essa mulher do teu mundo?
Pace sentia-se tentado a deixá-la ficar com essa esperança. Terrivelmente tentado. Arrependido de alguma vez ter tocado no assunto. A teoria do seu pai talvez não passasse disso mesmo. Duma teoria. Ele é que andara demasiado tempo perdido no caminho, sem companhia nem grandes distracções, e as especulações do pai tornara-se para si uma verdadeira obsessão. Podia tudo não passar disso. Uma abstracção da sua mente obcecada. Nada mais.
Antes fosse.
- Bliss… sabes o que é o cinema?
Foi a vez dela respirar pesadamente. Desviou o olhar dos olhos de Pace para que não visse reproduzida neles a morte da esperança que se permitira sentir. Nem sabia o que era uma actriz. Virou-se de costas para ele.
- Talvez me tenha esquecido... dessas coisas todas – disse ela, sem acreditar numa palavra que fosse.
- Talvez.
- Disseste que também te esqueces de coisas, Pace.
- E esqueço. Muitas coisas.
Bliss voltou-se, tão depressa que o seu longo cabelo chicoteou o ar parado do quarto, e castigou o companheiro com o olhar.
- Oh, poupa-me à tua condescendência, Pace.
- Desculpa. – O amigo sorriu ao vê-la tão prontamente recomposta. Ia precisar da sua têmpera aguerrida para o que tinha em mente.
- O que faz uma ac… uma…
- Actriz de cinema? Representa.
Bliss abanou a cabeça perante a inutilidade daquela resposta. Pace tentou de novo.
- Faz de conta que é outras pessoas.
- E porque me pareço com essa mulher, que faz de conta que é outras pessoas? Como é que me encaixo na tua teoria?
- Bom… – Pace escolheu as palavras directamente do empobrecido banco das memórias onde guardava, entre outras, as coisas que o pai dizia. – O meu pai achava que a familiaridade presente nalgumas das coisas que víamos passar da noite se devia ao facto do número de ideias originais ser muito reduzido. Ele culpava a o sucesso da cultura pop para explicar porque era que um forasteiro nos soava tão… tão familiar. Se as ideias de um criador pouco original, que era a hipótese que o meu pai defendia, estavam a invadir o nosso mundo, não tardaria a vermos passar defronte da nossa parte figuras de fraca originalidade. A princípio, o meu pai chamava-lhes “plágios.” Ou “plagiatos.” Era só especulação da parte dele, mas… Sim, começaram a surgir forasteiros que eu reconhecia de lugares-comuns na ficção, com rostos de actrizes e actores conhecidos. Nem sei se começaram a surgir depois do meu pai ter colocado a hipótese de virmos a vê-los, ou se sempre os tínhamos visto e só agora é que estávamos atentos. Ou mais atentos. Algum tipo de estranheza constituía ainda a maioria, mas muitos dos forasteiros que atravessaram o nosso pátio, realmente, já os tínhamos visto antes. Levei tempo a admitir que o meu pai estava mais uma vez certo nas suas suposições. Lembro-me de estar a aliviar os meus intestinos uma vez e começar a ouvir um ruído de qualquer coisa a esgravatar debaixo de mim. Levantei-me e vi a tentar subir pela retrete algo muito que era parecido com o Rato Mickey.
- Um rato? – Worms encolheu os ombros. – Ratos são assim tão extraordinários no seu mun… lá de onde você vem?
- Não, são uma praga, mas este parecia-se com um rato em particular. Um rato faz-de-conta. Rebentei-lhe os miolos com um tiro da minha espingarda, nunca andava muito longe de mim, depois puxei o autoclismo e fui contar ao meu pai que tinha acabado de matar o Rato Mickey. Lembro-me de que ele me ter dito que já era tempo de alguém lhe tratar da saúde.
Pace sorriu para si, que a piada estava irremediavelmente perdida para os outros, e depois o rosto dele foi tomado de sombras. Era a primeira vez que se lembrava dos episódios que acabara de relatar. O rato na sanita, a teoria do pai sobre os forasteiros-plágio e os lugares comuns de certas ideias que tinham invadido o mundo deles, tudo coisas que não faziam parte das suas memórias. Não faziam, até ao momento em que passaram a fazer. Como se alguém as tivesse imaginado e as colocasse em palavras na sua boca.
A noite, tendo mais uma vez derrotado as aspirações do dia, aguentava-se no céu de braço dado com o compacto manto de poluição que cobria a Cidade Baixa desde o ocidente onde a Número Sete descia vinda da Baía, até à antiga zona industrial transformada no paradeiro do vício e da iniquidade, cobrindo também o sul onde o velho caminho-de-ferro servia de divisa que se fazia necessária entre a cidade e a lixeira a que chamavam “depósito de monstros”, e o norte, o obsoleto centro administrativo abandonado às pressas para onde os fundadores haviam empurrado os serviços municipais e a maioria dos estabelecimentos de ensino, que era onde Tattoo se encontrava agora sentado no muro tombado das ruínas duma escola primária, aguardando inquieto, impacientemente à espera que as suas promessas de vingança fossem finalmente cumpridas pelo descomunal polícia vindo do outro lado das colinas, mas já com um farnel próprio de loucura, e desaparecido no interior do edifício onde o Palhaço se escondia quando não andava por aí a comer crianças, como fizera à sua mana, de apenas seis anos, há tanto tempo atrás, Malaquias não regressava, Tattoo desesperava, mas um movimento subtil nas suas costas, embora não suficientemente subtil, fê-lo virar a cabeça para a mulher que se aproximava e que ele reconheceu de imediato, dizendo:
“Boa noite, minha senhora.”
“Boa noite.”
“A senhora é a esposa do meu amigo, não é?”
“Sim, sou.”
“A senhora é um fantasma.”
“Manda o roto à cara do nu.”
“O marido da senhora não me disse o seu nome.”
“Ele prometeu nunca mais o dizer em voz alta. Mas tu podes dizê-lo. Chamo-me Mimi.”
“Tattoo.”
“Tattoo?”
“A minha mana é que me chamava assim.”
“É bonito.”
“Ele entrou ali. O seu marido.”
“Foi?”
“Há algum tempo.”
“Há quanto tempo?”
“Algum. Estou preocupado.”
“Eu não. Conheço o homem com quem casei.”
“Ele cumpre as suas promessas?”
“Às vezes. Posso sentar-me ao teu pé?”
O miúdo acenou e indicou o lugar vago e sentaram-se os dois lado a lado em cima duma laje tombada do muro, a olhar para a porta escura que dava para o interior da escola primária onde Tattoo andara com a sua adorada mana, uma experiência cheia de felicidade e brincadeira até ao momento em que o Palhaço apareceu para estragar a festa, com os seus dentes e as suas garras e a sua fome devoradora, apanhando a mana primeiro, apesar de tudo o que Tattoo fez para evitar um desfecho inevitável, e quando o rapaz, tinha oito anos nessa época, e ainda tinha, se atirou ao Palhaço de raiva e desespero, o monstro matou-o também e depois Tattoo testemunhou em espírito todos os passos na imparável descida ao inferno dos pais, não sabendo explicar como ficara para trás, condenado a assombrar a sua antiga escola ao longo de longos anos, décadas, até que um dia, uma noite, viu o mesmo Palhaço regressar ao local do crime e fazer dele o seu covil, um lugar discreto num lugar perdido onde fazer a outras crianças o que ele fizera à sua mana e a si, tantos anos antes, as mesmas atrocidades e Tattoo nada podia fazer senão olhar impotente, vê-lo arrastar a pequenada para os corredores negros e as salas de aula destruídas onde ele aprendera a ler e a escrever e a somar e a subtrair e a multiplicar e a ser uma criança, vê-lo alimentar-se não só dos seus corpos miúdos mas também dos seus gritos, das suas almas, era assim que o Palhaço se mantinha vivo e aquele pesadelo caminhava eternamente na Cidade Baixa, chegando inclusivamente a aventurar-se para lá das colinas, a espalhar a sua maldade nos lugares onde ainda havia sol, o monstro era poderoso, e os esforços de Tattoo para o deter, ineficazes.
“Tentei, minha senhora.”
“És apenas um fantasma.”
Na Cidade Baixa ninguém ouvia coisa alguma pois nunca nada se passava, crianças não gritavam na noite, os seus pedidos de ajuda perdidos para sempre no vento mal cheiroso que soprava do depósito de monstros e anestesiava os corações daqueles que viviam ali à volta em prédios deixados devolutos pelas grandes corporações e resgatados pelos miseráveis que, por alguma razão, continuavam a afluir àquele buraco que era como uma cicatriz purulenta no rosto granítico do mundo onde ninguém queria saber do jantar volante do Palhaço, nem sequer do Palhaço, Tattoo sentia-se muito só, vazio, um fantasma no meio de almas penadas agrilhoado à semelhança de destino das vítimas seguintes duma criatura que resistia ao passar dos tempos, prosperar, até, medrava, enquanto que ele se extinguia.
“Estar morto é uma maçada, minha senhora.”
“Pois é.”
“Ninguém nos vale.”
“Pois não.”
“A senhora morreu há muito tempo?”
“Não sei. Em que ano estamos?”
“Não sei, minha senhora.”
Tattoo, com o tempo, começou a reparar que se tornava cada vez mais complicado para si manter a coesão do seu protoplasmático “eu”, sentindo que era puxado como que por um torvelinho invisível para o nada que engolira a sua mana e os seus pais no instante das suas mortes, e ele não querendo ir, não dando por cumprida a sua função no mundo dos vivos, se era que se podia dizer isso da Cidade Baixa, que era um mundo de vivos, ao qual ele se agarrava com todas as forças que lhe restavam, com tantas quanto se agarrava obstinado à esperança de alguma vez chegar ao momento em que conseguiria, sem dúvida por intermédio de um milagre, atalhar as atrocidades do Palhaço, não era já a vingança que o animava, era o desejo de pôr um fim ao pesadelo, seu e das outra vítimas.
“De todas que ele matou, porquê eu?”
“Porquê tu o quê?”
“Porque só eu fiquei para trás?”
“Não sei. Sou só uma dona-de-casa.”
“O fantasma duma dona-de-casa.”
“A falar com o fantasma dum miúdo com a mania que é, ou que foi, esperto.”
Esperto, talvez, mas o mais certo era que Tattoo tivesse antes sido casmurro, como a mãe dizia que ele era sempre que ele era realmente casmurro, que saía ao pai, nisso e noutras coisas, e que isso tinha tanto de bom como de mau, o ser-se casmurro, provavelmente a parte boa da coisa a mantê-lo na sombra do Palhaço, por muito que lhe custasse vê-lo pela frente e mal algum lhe poder causar, vê-lo fazer o que fazia sem nada poder fazer para o impedir, e muito diligenciou Tattoo, na Cidade Baixa onde os fantasmas nem a todos passavam despercebidos, onde havia quem o visse mas fizesse de conta que não via, ou que negava tê-lo visto por medo de estar a enlouquecer, um medo saudável e fora de tempo, pois a loucura era condição inevitável para se viver ali e, pelos vistos, para se demorar por ali depois de morto, e os piores eram aquele que o viam e o ignoravam, não lhe prestavam atenção, não queriam saber de palhaços para nada e de crianças a gritar aterrorizadas, a vida naquele lugar era difícil para toda a gente, viva ou morta, a esperança não tinha ascendência alguma na Cidade Baixa, não tinha até Malaquias entrar em cena, num momento muito avançado do terceiro acto em que de Tattoo restava já muito pouco e da sua fé menos que nada, o espírito do miúdo reduzido a fumos e a memórias dispersas pela antiga escola que passara também a ser para ele o lar, escuridão gélida partilhada com o seu algoz.
“Estava a morrer, minha senhora. Outra vez.”
“Pode-se morrer duas vezes?”
“Aqui na Cidade Baixa até mais, se calhar.”
Tattoo achava que morria de vez, não sabia há quanto tempo se sentia assim, mas sentia-se mais lá do que cá, acabado, fracassado, um miúdo de oito anos num corpo desvanecido de um fantasma de sessenta, sem forças e sem esperança, que era uma espécie de força, se calhar a única que o prendia à escola, e então sentiu uma energia incrível irradiar de não muito longe dali e foi essa energia que o atraiu para o “Sol Morto” onde foi encontrar um assombro enorme de homem a fazer perguntas sobre um Palhaço em particular e a comer coisas que um adulto não devia comer e, para seu alívio, este homem conseguia vê-lo e, para seu regozijo, este homem queria ouvir o que tinha para lhe contar e, cereja no topo do bolo, como o bolo que fora servido na escola primária no dia da festa estragada pelo Palhaço, este homem que viera de lá das colinas queria tanto quanto ele matar o monstro, e esta era a história, admitidamente muito resumida, que Tattoo contou a Mimi, englobando acontecimentos desde o momento em o Palhaço lhe comera a mana até ao marido do fantasma da dona-de-casa ter entrado na escola, já lá ia algum tempo.
“Quanto tempo?”
“Algum, minha senhora.”
“Não estou preocupada.”
Mal Mimi terminara de o dizer, Malaquias emergiu todo roto e ensanguentado, mas vivo, da porta escura, vivo como só homem vivo poderia parecer a um fantasma, ou a um par deles, cambaleando num passo que podia ser mais certo, paciência, ao menos ali vinha ele, e do Palhaço nem sinal, Malaquias a quem faltava agora o nariz e ambas as orelhas e diversas outras partes do seu corpo, em pior estado ficara a farpela, mas essa era apenas questão de vestir roupa lavada, as orelhas não voltavam a crescer e apesar de saber isso sorria, ainda que de forma estranha, mas era indubitavelmente um sorriso que se demorava no trejeito conhecido da sua boca larga, os olhos dele, ambos tendo sobrevivido, caindo no fantasma da sua mulher, sorriso que não se desmanchou até se chegar junto a ela e ela dizer-lhe:
“O estado em que tu vens…”
“Devias ter visto como ficou o outro.”
Tattoo a dizer-lhe:
“Matou-o?”
“Sim, puto. Toma.”
Malaquias passou-lhe qualquer coisa para a mão, o maxilar inferior do Palhaço.
“Prometeu-me o coração.”
“O coração…”
Malaquias interrompeu-se, arrotou e disse:
“…não era nada de especial.”
A falecida dizendo-lhe:
“Que fizeste tu?”
“O que faço sempre: tirei mais um criminoso das ruas.”
“E agora?”
“Agora? Acho que vou ficar.”
“Aqui? Porquê?”
“É uma cidade enorme onde a autoridade não é mais que um músculo definhado. Pessoas desaparecem todos os dias. As taxas de crime devem ser altíssimas. Nunca vi um lugar mais necessitado do amor bruto que só eu sei distribuir. Além disso…”
“Sim?”
“Tu estás aqui.”
“Sou um fantasma.”
“Mas estás aqui. Aqui, e não do outro lado das colinas.”
“Não sei se posso ficar.”
“O puto ficou este tempo todo. Não ficaste, puto?”
“Fiquei, sim senhor.”
“Achas que podes ficar mais um pouco? Vou precisar de um ajudante. O trabalho é muito.”
“Acho que posso ficar o tempo que for preciso.”
“Vês? Se o puto pode, tu também podes.”
“Deves estar louco.”
“Só porque estou a falar com fantasmas?”
“Não, porque finalmente encontrámos uma criança de que tu gostas.”
“Ele está morto, não conta.”
Tattoo riu-se, Mimi riu-se e Malaquias sussurrou à Cidade Baixa:
“Preparem-se. Aqui vem Malaquias, o Grande.”
FIM
Malaquias estava, aos poucos e uma dentada de cada vez, a ser devorado mas, também aos poucos, a deixar-se levar pelo entusiasmo do combate e a parar de se importar com cada um dos pedacinhos de si que o Palhaço lhe levava, a maior parte das vezes que ele mordia só apanhava banha, nada que lhe fizesse muita falta, pior eram os rasgões na farpela, no seu fatinho de bombazina azul-marinho, paciência, fora um erro trazê-lo para a Cidade Baixa, agora era tarde pensar nisso, tinha com que se entreter, ocupado a voltar a acertar um murro no monstro risonho, um murro que fosse, era difícil, o Palhaço fincava-lhe as dentolas e esquivava-se, fintava e esquivava-se, um oponente à altura do gabarito do Bombardeiro, agilidade e elasticidade não lhe faltavam, e aquelas mãos cheias de dígitos de gume afiado pareciam as pás duma hélice dupla, cortavam o ar morto das ruínas da escola primária antes de cortarem a pele e a banha, quase nunca carne, de Malaquias, que já mal notava, a dor nem registava, estava a levar uma coça das valentes e nem isso lhe registava nos processos desenfreados do cérebro, há muito tempo que não se metia numa briga daquelas, que não se sentia tão vivo, não era só o adversário que sorria loucamente na escuridão que as poucas velas que não tinham sido derrubadas ou apagadas tentavam em vão manter à distância no corredor e, no meio da peleja, conversavam:
“Mordo, mordo, mas não lhe chego às carnes, Sr. Polícia.”
“Então, pára quieto que é para apanhares.”
“Já pensou em fazer dieta?”
“Não vale a pena. Todos os quilos que perco acabam por me encontrar mais tarde. São como os cães. Seguem-me até casa.”
Malaquias falhou mais um soco potencialmente bem dado caso tivesse o mesmo conectado com alguma parte do rosto onde se esboçava aquele terno sorriso de AVC do Palhaço, Malaquias era mais forte mas o adversário era mais lesto, movia-se tão rapidamente que se tornava difícil vê-lo, certos momentos era como se não estivesse ali e Malaquias combatesse uma sombra, talvez a sua, ou um fantasma de mandíbula assanhada e dentes afilados, e então surgia à sua frente a acicatá-lo, a desafiá-lo para que lhe acertasse um cachação dos dele, a ver se conseguia, a ver se ele deixava, para logo a seguir, tão logo que era difícil descrever, aparecer atrás do polícia e morder-lhe o cachaço, com a frustração a crescer em Malaquias ao mesmo ritmo que o gozo que estava a tirar daquela altercação, e a irradiar de si para o Palhaço, o que era melhor ainda, também a fartar-se de abocanhar nada a não ser banha de agente de autoridade, por isso é que ele comia criancinhas, mais chicha, mais à superfície da pele, mesmo as mais gordinhas, gostar de toucinho era uma coisa mas aquilo, era outra, completamente diferente, anda por cima Malaquias não parecia muito importunado pela dor que o Palhaço sabia lhe estar a causar com as suas mordidelas, por aquele andar ainda estariam ali quando o dia voltasse a nascer na Cidade Baixa, que era como quem dizia, se fosse optimista, dali a muito tempo, perdidos numa dança em que um não morria e o outro não almoçava e só porque o canibal de biqueira longa era imortal não significava que podia esperar que o outro se cansasse, Malaquias não dava ares de se cansar, ou de suar, que mais depressa aquele exercício todo lhe consumiria as adiposidades escondidas no fato de gosto duvidoso, agora esfarrapado, do que as mandíbulas do Palhaço, mas não tão depressa quanto isso, não seria por aí que o combate se resolveria.
Para Malaquias, a resolução daquele impasse passava por um dos seus murros de mão direita, dando um passo à frente, juntando o peso do corpo, desnecessário dizer que o mesmo era considerável, à mesma e afinal dito, ao movimento do ombro direito para acrescentar um par de pontinhos na escala de Richter, não de Mercali, a de Mercali era para meninas, à catástrofe que se abateria sobre a focinheira esburacada do Palhaço e se isso não o abalasse, Malaquias talvez ficasse sem ideias, cedo demais para pensar nisso, para se preocupar com isso, estava a divertir-se tanto, a esquecer-se das tragédias pessoais e das má influências que a Cidade Baixa jogava sobre si e o seu espírito, Malaquias estava a levar uma abada mas ele era homem para aguentar o pior que o adversário tinha para dar, era esse tipo de lutador, era Cassius Clay antes da conversão ao islamismo, e o Palhaço era uma bailarina, nada mais do que uma bailarina do toca-e-foge, do morde-e-esquiva, com um par de passos e pouco mais que isso de movimentos, suficiente para a criançada mas Malaquias não era nenhum miúdo, era um homem, era um polícia, quantos anos daquilo ele tinha, digam lá, aposto que sabem de cor, trinta, pois então, e mais troféus de boxe amador que Muhammed Ali tinha de profissional, as coisas que ele sabia fazer com os punhos, aos outros, a doer, sem misericórdia, era só dar uma bem dada nos cornos do Palhaço, era só adivinhar para onde ele se ia esquivar a seguir, não a seguir, mas três movimentos a seguir, porque ele era assim tão rápido, adivinhar-lhe o passo seguinte não adiantava, Malaquias metia lá o murro e o sacana já lá não estava, era preciso prever o terceiro passo a seguir ao que o Palhaço, quase demasiado rápido para que o seu movimento fosse captado pelo olho humano, iria dar, e Malaquias era a paciência em pessoa, a pachorra personificada, ninguém sabia como ele esperar, de olho no momento certo, estratega insuperável do ringue, espera lá que já cospes, põe-te lá a jeito, ó Palhaço, que já te selo o destino à moda do Bombardeiro, não tens assim muito espaço aqui no corredor, escolheste mal o covil, pior ainda o adversário, vamos lá pôr à prova essa tua teoria de imortalidade.
“Gordo.”
“Chama-me nomes, Palhaço.”
“Sebento.”
“Chama-me nomes.”
Malaquias estava nas nuvens, não aquelas baixas logo acima da Cidade Baixa, mas nas nuvens de que se fala quando se fala no Paraíso, apreendendo perseverantemente a técnica do adversário, dando-lhe os flancos para ele se entreter a mordê-los, a arranhá-los, mas sem que alcançasse a carne e muito menos algum órgão vital, mesmo tendo já a cara toda escalavrada, as papadas do pescoço abocanhadas, o Palhaço lutava como uma miúda, sobrenatural, porém uma miúda, saltitona e indisciplinada, era uma pena, mas não deixava de ser perigoso, mortífero, mesmo, porque mais tarde ou mais cedo iria abrir um alvéolo na muralha de toucinho de Malaquias e depois a sua velocidade faria o resto, bem capaz era ele de lhe saltar para dentro do corpo e comê-lo por dentro, devorá-lo como os sobrinhos devoravam doces, engolindo sem mastigar, e então toda a aprendizagem que o Bombardeiro recebera no corpo sobre o estilo de combate do Palhaço, estilo mariposa, seria em vão, seria debalde, mesmo a divertir-se como estava o antigo campeão da Academia de Polícia não perdia de vista os riscos que corria.
“Então e esses nomes?”
“Buchaaaaaahahahahahahahahaaaa!”
Isso, pensava Malaquias, distrai esse sacana, faz de conta que não sabes como o derrotar, deixa que o peito dele se encha de triunfalismo, ignora os dentes dele no teu mamilo esquerdo, ignora o teu mamilo esquerdo dentro da boca dele, ignora as feridas superficiais que ele te causa, és Malaquias, o Bombardeiro, já te fizeram muito pior em combates, ele que leve a tua orelha direita, ele que leva a esquerda e meio quilo de banha de ambas as nádegas agora que as calças se romperam no rabo, não prestes atenção ao teu sangue nos lábios do Palhaço, finge que tens uma quantidade interminável do produto, finge que os mamilos voltam a crescer, e espera, espera pelo teu momento, já consegues perceber dois movimentos à frente do que ele está a fazer agora, só mais um, adivinha mais um, profetisa a terceira deslocação dele, vaticina a terceira mordida a seguir a esta que te arrancou a ponta do nariz, mais narina, menos narina, ignora que estás a ficar desfigurado ao ponto de da próxima vez que te vires ao espelho não seres capaz de te reconhecer, deixa-o comer as partes de ti que não fazem falta enquanto tentas ler-lhe os pensamentos, calcular-lhe os impulsos, prepara esse murro de direita, prepara aquilo que o teu treinador na polícia chamava de “a Bombarda” e os adversários “a bomba atómica”, atenção aos pés, atenção, espera, ele aí vem, espera, não te precipites, podes não ter outra oportunidade, espera, isso, isso, espera.
Agora!
Tau!
A Bombarda.
Em cheio no meio da cara de feio do Palhaço, osso ressoando a fender-se contra os nós dos dedos de Malaquias, a despedaçar aquele sorriso doentio, aquela irrequieta mandíbula inferior, aquela fileira de dentes sanguinários, a cabeça dele a abanar na inércia do pescoço e este a não conseguir suster toda a força do surpreendente impacto, Palhaço, Bombarda, Bombarda, Palhaço, e a quebrar-se com um estalido seco, apoteótico, verdadeira banda sonora dum triunfo merecido, o canibal a ir ao tapete à luz da última vela que se deixou ficar para trás para assistir até ao fim ao combate do século, e que fim, valia bem o preço do bilhete, do pay-per-view, o corpo do palhaço caído para um lado e a sua cabeça a apontar para o outro, a tentar falar, falhando mas, se conseguisse proferir as suas últimas palavras, teria dito:
“O Sr. Polícia não entende, não posso morr…”
“Cala-te, Palhaço. Ainda não acabei.”
O próprio Malaquias soprou a última vela para que fosse a escuridão a única testemunha do que ele se preparava para fazer a seguir.
Quando penso num falhanço tipicamente português lembro-me dos dois amigos, Carlos da Maia e João da Ega, personagens do romance de Eça de Queiroz.
No final do séc XIX, em Lisboa, estes jovens sonhavam em construir um válido projecto de vida. Ega anunciava constantemente a publicação de um livro que seria sucesso garantido enquanto que Carlos preparava um consultório médico de luxo e até um laboratório de investigação científica. Com o passar do tempo, dos banquetes sumptuosos e das aventuras amorosas o trabalho foi sendo esquecido e relegado para um tempo indefinido.
No final do livro Ega exclama ao reencontrar-se com o amigo: “Falhámos a vida, menino!”
Naquela época falhar a vida era privilégio da alta burguesia pois o resto das gentes estava demasiado ocupado em sobreviver. Era um tempo de extremos. Quem tinha tudo nada fazia e quem não tinha nada sobrava-lhe o trabalho em demasia.
Portugal é agora um país diferente. Mas olhando bem e vendo com atenção não conseguimos resistir à tentação de encontrar as semelhanças com o país de Eça. Continuamos afastados dos países europeus.
Há quem diga que Portugal morreu. Morreu a ideia de um país com gente feliz. Os números, a internet de banda larga, o betão prosperaram e a cultura, a educação, a saúde, a protecção das pessoas definharam. O interior do país está desertificado e as populações que resistem ficaram entregues a si próprias. Sem direito a maternidades, parindo nas contra-curvas dos montes que as ambulâncias percorrem até às capitais.
A ameaça de bancarrota discutida nos Maias parece irmã gémea da que se proclama hoje.
E nós? Agora que se democratizou o sonho com que sonhamos? Ter carros e casas? Viajar? Possuir coisas? Não consegui-lo plenamente é falhar? E consegui-lo, não deixa também um estranho amargo de boca?
Agora que todos podemos sonhar sabemos fazê-lo ou desperdiçamos os dias entretidos com coisas vãs como Carlos da Maia e João da Ega?
Estará Portugal condenado a falhar?
O Homem Aranha agarrado à parede
Encosta o cansaço da face ao cimento,
Constrói, suando, a teia da sua sede,
Febre sufocante e fatal do alimento.
O Homem Aranha já mata cuspindo
Silêncios com sabores de ilusão.
Quem morre range e chora e vai caindo,
Cala gritos, derrama a saudade no chão.
O Homem Aranha nunca olha a presa,
Não mostra as mãos calejadas da tristeza.
Finge ser ave tímida adormecida,
Nos olhos que come receia ver vida.
O Homem Aranha nunca foi um herói,
Volta as costas ao mundo, fica a penar,
Acarinha a dor esfaimada que lhe dói,
Vomita agonias sangrentas p’ra voar!
O sorriso do Palhaço brilhou na escuridão da escola primária abandonada enquanto os ecos das gargalhadas dele não se esgotavam de paredes nas quais ricochetear loucamente no corredor apertado, regressando sempre para assaltar os poucos sentidos que Malaquias, caído de joelhos aos pés da sobrinha empalada, ainda não jogara para longe, como fizera à pistola, que talvez lhe viesse a fazer falta, se é que a Malaquias ainda apetecia dar luta, dar caça ao monstro, cumprir a promessa que fizera a Tattoo, à sua espera lá fora, de lhe levar o coração do assassino, ainda a bater, ou quem sabe a língua que não parava de tagarelar, dizendo-lhe coisas como:
“Coitadinha passou o tempo todo a dizer que o tio a vinha salvar. Que o tio era Polícia. Que tinha uma pistola. Que matava palhaços maus.”
Falando, o Palhaço aproximava-se e, aproximando-se, velas colocadas junto à parede de cada lado do corredor acendiam-se à sua passagem, iluminando a sua figura desconjuntada, tornando-a real, revelando à luz inconstante o seu jaquetão de cauda coçado, de flanela aos quadrados vermelhos e vermelhos escuros, rasgões no tecido velho aos quais não faltavam os remendos coloridos, todas as cores possíveis, como a gravata mal amanhada ao pescoço e demasiado curta, na lapela uma flor que podia ter sido um girassol que ele trouxera do lado da colina onde ainda nascia o dia mas que agora estava morta, vitimada pela adversidade ambiental da Cidade Baixa onda nada que fosse bonito se aguentava muito tempo, o tacão dos sapatos de palhaço, cinquenta centímetros de verniz e biqueira redonda de madeira, a estalar no chão de entulho por cada passo que ele dava na direcção de Malaquias, como um leão a encurtar distância com a gazela, um leão comunicativo, sempre falando.
“Sou um palhaço mau, Sr. Polícia?”
As feições do monstro respondiam à sua própria pergunta, nada que fizesse aquela careta quando sorria podia ser bom, nada que mostrasse o amarelo afiado dos dentes poderia passar por bom, pobre ou rico ou sequer triste, aquele era um palhaço mau, mau como o pior dos males do mundo, um sorriso pintado que devorava criancinhas, batom encarnado-sangue desenhando lábios grossos imaginários em lábios finos, um esgar falso como o nariz vermelho seguro por um fio negro que se apertava num risco nas maçãs do rosto, e o olhos, negros, todos negros, onde espirais brancas rodavam cada uma para seu lado, reflectindo a luz das velas que continuavam a acender-se sozinhas, as suas pequenas flamas assemelhando-se aos cabelos vermelhos espetados da peruca demasiado gasta, acometida da calvície do tempo e mal presa sob as orelhas esguias do Palhaço.
“Também me vai dar um tiro na cabeça?”
Ia, se Malaquias ainda tivesse a pistola ou se a pistola ainda tivesse balas, se não as tivesse desperdiçado alvejando a escuridão para evitar alvejar a si mesmo, para sabotar o impulso que sentira ainda há pouco de se matar, vontade que nada tinha a ver consigo, realmente era contrária ao seu feitio, mas que por momentos lhe parecera a melhor ideia que tivera em toda a sua vida, um assomo de génio, uma ideia irresistível à qual conseguira, de alguma maneira, resistir, um fim que lograra precaver, mas agora a falta da pistola e das balas fazia-se sentir, embora o que Malaquias mais sentisse naquele instante fosse raiva, e em grandes quantidades, e um ódio que não lhe ficava atrás, e uma fúria que era como um mar a galgar os açudes da alma e a afogar todas as facetas boas dum homem bom, bom marido, bom polícia, bom com os punhos, que era tudo o que precisava para torcer o pescoço ao assassino dos cunhados e dos sobrinhos e duma porção de pequenitos e pequenitas ainda por apurar, aquele gajo ia apanhar, ui se ia, e pela medida grande, a maior que existisse, mas antes, sucedeu que houve esta seca, porém demorada, troca de palavras, que abriu com:
“Não me pode matar, Sr. Polícia.”
“Não posso? Porquê?”
“As crianças.”
“As crianças?”
“As crianças. Se me matasse, quem é que punha as queriduchas bem-dispostas? Quem é que as faria rir? Quem é que os pais deste mundo iam buscar para lhes animar as festinhas de aniversário? Pense lá bem, antes de me matar. Pense nas crianças.”
“Ó Palhaço, aqui entre nós que ninguém nos ouve…”
“Sim?”
“Nunca gostei de crianças.”
“Não?”
“Não as suporto.”
“Sério?”
“Sério.”
“Eu adoro-as.”
“São uma praga.”
“São fofinhas.”
“Irritam-me.”
“Deliciosas.”
“Transmitem doenças.”
“Estaladiças.”
“Monstrinhos interesseiros, todas elas.”
“Mas então… Se não foi para salvar aqui a queriducha da sua sobrinha, porque veio à Cidade Baixa?”
“Porque sou polícia. Trinta são os anos que tenho disto. Nunca deixei um patife escapar-me. Não hás-de ser o primeiro que se fica a rir de mim.”
“Veio cá para me prender?”
“Bom, não…”
“Para me matar?”
“Bingo.”
“Não pode matar-me, Sr. Polícia.”
“Porque não?”
“Não posso morrer.”
“Não podes ou não queres?”
“Não posso.”
“Não estou convencido.”
“Podia contar-lhe…”
“Conta.”
“Não vai acreditar.”
“Conta lá, ó Palhaço.”
“Cheguei com o primeiro circo que teve a infeliz ideia de passar por cá ainda a Cidade Baixa era um vilarejo e os habitantes tinham acabado de sacudir do pêlo os resquícios religiosos dos seus fundadores. Queriam diversão, nós precisávamos do dinheiro. Mas havia algo aqui no fundo do vale. Os nossos animais sentiram-no assim que descemos as colinas, mostraram-se agitados à chegada. Nos dias que se passaram, o nosso leão comeu um braço ao tratador. As focas devoraram-se umas às outras. Ao elefante pareceu boa ideia engolir a própria tromba. E a mim…
“Deu-te a fome.”
“Comecei a olhar para e pequenada e a imaginar se iam bem com batatinhas assadas. Com arroz de passas. Guisadas. Tinha um livro grotesco de receitas na minha cabeça e queria experimentar todos os pratos. E estava sempre com fome.”
“Sei o que isso é.”
“A loucura também se apoderou dos outros artistas. Tanto que o circo morreu aqui. A Cidade Baixa engoliu-o. Engole tudo.”
“Balelas.”
“Vai engoli-lo também, Sr. Polícia.”
“Ela que tente.”
“Quer dizer, vai se…”
“Sim? Se o quê?”
“Se eu não o comer primeiro.”
“Pensei que só deitavas o dente a crianças, Palhaço.”
“Mas também gosto de toucinho.”
“Morde aqui, então.”
O punho direito de Malaquias pôs fim à estúpida interlocução, amachucando o nariz de palhaço ao Palhaço, fazendo-o saltar daquela carantonha desengraçada, expondo à luz das velas que agora se encapelava com o rebuliço o buraco onde um nariz de gente deveria estar, a concavidade nasal duma caveira pintada para parecer viva, e o punho esquerdo veio como um raio logo a seguir ao outro, em cheio na queixada dentada do canibal, que se desengonçou e pendeu para o pescoço como se o monstro tivesse tido um acidente cardiovascular, não fora o caso, apenas um encontro imediato com os punhos, um atrás do outro, de Malaquias, outrora o Bombardeiro, o Palhaço a ir ao chão no mais recente nocaute ao primeiro assalto da sua recém-reactivada carreira de pugilista, prato frio que já fora antes servido a uma centena de guardas prisionais do Monte, dado a provar agora ao patife dos sapatos compridos, um deles a voar-lhe do pé, que não era um pé, apenas ossos, dedos de osso a espreitarem do peúgo roto, o Palhaço a encontrar-se no chão e a realinhar o maxilar num sorriso torto e a dizer:
“Au!”
Malaquias aproximou-se para lhe chegar mais um pouco, com que então imortal, o senhor Palhaço, coitadinho, não pode morrer, tirava-se já isso a limpo, agarrou-o pela gravata e pô-lo de pé para novas galhetas, iguais às outras, vindas do mesmo sítio que as outras, até transformar o monstro em pó de osso moído, mas o monstro não estava para ser saco de pancada e mordeu-lhe a mão que vinha para lhe bater outra vez, mordeu fundo, Malaquias soltou um urro, o Palhaço soltou-lhe um bocado de carne entre o polegar e o indicador, Malaquias soltou outro urro, o Palhaço mordeu-lhe o pulso ainda mais fundo, as mãos do Palhaço nasceram das mangas do casaco mofado e os dedos retorcidos e afiados cresceram dos buracos das luvas e as unhas cravaram-se nos ombros do Malaquias que, farto de urrar, desta vez aguentou a dor em silêncio e desferiu nova murraça a ver se conseguia soltar-se das dentadas do adversário, não conseguia, o bicho movia-se a uma velocidade estonteante, mordendo aqui, arranhando ali, ferrando-lhe ainda acolá, sempre arrancando nacos a Malaquias, que se sentia como se estivesse a ser devorado vivo, já a ter uma boa ideia no sentido de perceber as agonias por que passavam as vítimas daquele dentuças, desenhando jabs e uppercuts e bofetadas à Bud Spencer que apenas atingiam o ar, que apenas faziam morrer a chama às velas mais próximas, o Palhaço era um adversário digno do Bombardeiro dos tempos antigos da Academia e a falta da pistola, da fusquinha, começava a morder no espírito de Malaquias ainda mais fundo que os dentes do carrasco dos seus sobrinhos, as mordidelas multiplicavam-se e entre uma e outra o Palhaço gargalhava, gargarejava, zombava dos murros que se perdiam na boa vontade do polícia, aquele confronto a pender cada vez mais para o seu lado.
“Está-me a saber bem, Sr. Polícia.”
“Oscula-me os glúteos, Palhaço.”
Seria este o fim inglório de Malaquias, que não já o Grande?
A Polícia tinha-lhe ficado com a mula por motivos de prova de crime mas Malaquias, o Grande, não era homem que facilmente se apanhasse em falta no que a artigos de arsenal dizia respeito e, à falta da mula, pistola com que matara ao engano Cats Bamber, um palhaço acidental, não O Palhaço que estava a pontos de limpar de qualquer tipo de sebo, a sua mão foi ao sovaco buscar a fusquinha, revólver de meia dúzia de tiros com um cano mais curto que o da mula mas de calibre exactamente igual, Malaquias até lhe tinha mais carinho que à outra, o tamanho nem sempre importava, e ele nem era do tipo que precisasse de uma pistola comprida para compensar coisa nenhuma, ninguém tinha nada a ver com isso mas a sua esposa, em viva, costumava-lhe gabar o canhão, perguntava-lhe entre risota jovial se ele tirara licença para o porte daquela arma, o marido dizia sempre que não, que era de fábrica, não carecia, segue para bingo, a fusquinha segura na mão direita e a esquerda a empurrar o portão que abria sob protesto e com lamúrias para as ruínas da escola primária onde Tattoo, o miúdo rancoroso, com boas razões para o ser, garantia se escondia o Palhaço, o tal, aquele ao que vinham, o come-crianças, nham-nham, comera-lhe a mana, seis anos tinha ela, pai despejou-a pela sanita abaixo, mãe tornou-se um anjo, nham, e Malaquias, não obstante toda essa tragédia, a perder algum tempo a tentar falar com ele, um diálogo sussurrado em que houve oportunidade para se dizerem coisas da qualidade de:
“Puto, tu ficas.”
“Não! Também vou.”
“Estouro-te uma rótula, puto.”
“Força. Vou ao pé-coxinho.”
“Dava-te cabo das duas mas as balas são capazes de me fazer falta.”
“Precisa de ajuda. Posso ajudar.”
“Se o Palhaço está mesmo ali dentro, já ajudaste.”
“Mas é que quero mesmo matá-lo.”
“Trago-te um bocado dele para matares.”
“O coração?”
“Se ele tiver um.”
Malaquias não botava fé que o monstro tivesse coração mas, tendo, ele faria tudo ao seu alcance para o trazer, ainda a bater, se possível, para que Tattoo pudesse espezinhá-lo com os seus sapatinhos envernizados, essa promessa foi lançada com um aceno de cabeça recíproco, os olhos do rapaz demonstravam grandes doses de confiança de que o avantajado polícia faria por cumprir o seu compromisso, e este, notando essa esperança, encheu o peito de brio e caminhou de forma assertiva para o pátio da escola onde outrora crianças teriam brincado durante o recreio, devorado os conteúdos das suas lancheiras carinhosamente forradas pela comidinha da mãe, ou da avó, Malaquias conseguia ver uma menina de totós a oscilar o corpo no baloiço de que apenas restava a armação de metal ferrugem, quase conseguia ouvir os aros do assento retesarem-se sob o peso da criança e gemerem nos ganchos da armação, os sons que outras crianças faziam à volta dessa menina, à espera que fosse a vez deles para andar no baloiço, e tentou imaginar aquele pátio iluminado pelo mesmo sol que sorria todos os dias aos miúdos do outro lado das colinas, mas falhou, não conseguia conceber que a Cidade Baixa alguma vez tivesse tido dias e, por isso, os sons fantasmas desapareceram no vento mal cheiroso que vinha do sul.
Malaquias aproximou-se do edifício da escola caminhando pesadamente ao lado da parede onde todas as janelas exibiam cruzetas completamente despidas de vidro, despidas de tudo, apenas perfeitos quadrados de escuridão intensa que não convidavam a que se espreitasse através deles, e Malaquias não o fez, avançando com a sua atenção à frente dos seus passos e a pistola, a fusquinha, prima da mula, segura em ambas as mãos suspensas na extensão total dos braços, postura aprendida num manual há mais de trinta anos, nunca esquecida, de como abordar um cenário duvidoso ou uma situação potencialmente perigosa, que ele era propenso a seguir as regras, não que não fosse capaz de jogar mão de improvisos, que era, de ter jogo de cintura, que a tinha, mesmo que a sua cintura ficasse logo abaixo do peito, que era onde o cinto conseguia alguma tracção, Malaquias trazia em si o necessário para demonstrar dinamismo nos calores dos momentos, Bruno Magli vomitados a pisar a terra do que um dia, se dia houvera, fora o recreio das crianças que os pais enviavam àquela escola, ali ao fundo, junto do pilar do bebedouro que já não existia, três miúdas e uma corda de saltar, quatro rapazes passavam por elas em perseguição a uma bola, risos, gritos infantis, bons tempos que o vento do presente levava para longe.
A porta principal da escola era alta, dupla, e metade estava aberta, desaparecida dos gonzos, engolida pela mesma escuridão que Malaquias, o Polícia sem Medo, se preparava para invadir de pistola em riste e sem esperança dos seus olhos se adaptarem àquele nível de trevas ou do seu estômago deflectir o cheirete que o atingiu na cara afogueada assim que ficou de frente para a entrada, um fedor que não era a pó nem a antiguidade mas sim a carcaça decomposta e a carniça mais recente, Malaquias entrou no que parecia ser um talho que não estava nos conformes quanto aos regulamentos que defendiam a saúde pública, três passadas no interior e a pouca luz de fora rendera-se incondicionalmente e tudo o que via era o que pressentia pelo som dos sapatos a pisarem entulho feito de lascas dos tijolos, pedaços de madeira, coisas que estalavam sob o peso dele, coisas moles e escorregadias, coisas que ele não via e dava graças a Deus por não as ver, cada vez mais dentro de um buraco dentro de outro buraco, andava em frente mas parecia descer, talvez Tattoo tivesse razão quando dizia que o Palhaço só podia ser o Diabo, talvez fosse, e Malaquias descesse a caminho do Inferno, pensamento que não lhe trazia grande temor, não era atreito a caçago, no máximo sentia algum agastamento por não conseguir ver patavina e, apesar do pivete a carne morta, alguma fome agora que o estômago estava novamente vazio e ele, sem nada em que focalizar toda a impressionante energia mental de que dispunha, se punha a pensar em comida.
Encontrou o corredor indo de encontro à parede e depois apalpando-a indecorosamente até dar com o acesso seguinte, que deu, e virando como nos manuais a pistola para o corredor antes de a seguir com o corpo, dando consigo numa menor largueza entre as paredes, dando consigo a conseguir ver as paredes que o ladeavam, percebendo que havia luz ao fim do, por assim dizer, túnel, oscilando na ponta dos trinta ou quarenta passos que Malaquias deu, um de cada vez muito lentamente, respirando pesadamente, olhando atentamente, até alcançar a vela única, grossa e indecisa na sua verticalidade ondulante, meio derretida, na bifurcação que seguia à esquerda e à direita, Malaquias optando pela direita porque era nessa direcção que lá longe se via outra vela e uma figura que a segurava imobilizada encostada à parede.
“Quieto aí!”
Sem resposta, Malaquias, trinta anos daquilo, não exactamente aquilo, mas parecido, avançou para a pessoa que, conforme ele se aproximava, ia aos seus olhos deprimindo de tamanho, a sombra que a luz da candeia lançava encolhendo das formas de adulto escorreito para as de jovem franzino e destas para as de uma criança, mas não uma criança qualquer, a fusquinha tremeu nas mãos do tio que via por terra a esperança de ainda conseguir salvar um dos sobrinhos gémeos, porque ali estava a sobrinha, gémeo sem, portanto, presa à parede por um espigão que a segurava no lugar como se fosse um naco de carne no matadouro, que era o que a escola se tinha tornado, os bracinhos dela posicionados como se estivesse em plena cerimónia de comunhão, empunhando a vela, e ela apesar de ter os olhos abertos não estava viva, e apesar de ter a boca aberta não dizia nada e mesmo não dizendo nada repreendiam Malaquias por mais uma vez ter chegado tarde, e Malaquias apertou a pistola na sua mão quando a Cidade Baixa arremessou sobre ele toda toxicidade da sua iniquidade aproveitando a brecha que tamanho desapontamento abria no espírito daquele homem para o aliciar com fantasias de suicídio, nem era preciso subir ao topo de um prédio, alguns anjos não precisavam de voar, não quando tinham uma pistola da mão e uma boca aberta num grito surdo ou uma cabeça do tamanho de Malaquias que, convenhamos, era impossível falhar e então um tiro soou no esconso da antiga escola primária, agitando a noite que nela vivia, apenas por um momento, apagando para sempre a luz que vivia no topo da vela.
Silêncio, o parágrafo mais curto num conto negro.
Mais curto ainda, silêncio.
Silêncio.
Sil…
Soou um novo tiro e mais outro e mais outro e mais outro e mais outro e então um clique no vazio que ecoou pela escuridão e mais outro e mais outro e mais outro e um grito de algum sentimento indescritível e mais outro e mais outro que originou um eco e mais outro e mais outro e Malaquias atirando a pistola contra coisa nenhuma e a fusquinha batendo num obstáculo que não se via e noutro e noutro antes de cair algures longe dali e Malaquias jogando as mãos à sobrinha para arrancá-la da parede mas ela não vinha porque estava bem presa e o sangue dela escorregava nas mãos do tio que tinha chegado demasiado tarde para a salvar e não conseguindo sequer levá-la dali para fora e Malaquias que nunca mais seria o Grande caindo de joelhos aos pés da sobrinha chorando até que uma gargalhada e mais outra e mais outra soaram e lhe gelaram os ossos e finalmente uma voz disse:
“Nham-nham.”
A escola tinha morrido há muito tempo, há tanto tempo que Malaquias mal reconhecia o local como tendo sido uma escola, e o que estava ali era uma assombração dum estabelecimento de ensino, uma escola primária assombrada, olha que grande ideia, insulada do resto da Cidade Baixa por um muro baixo de onde nasciam espigões metálicos negros apontados num repto de desafio ao telheiro impassível de nuvens demasiado altivas para o baixo que se dependuravam, um muro que nalgumas secções surgia derrubado em cascatas de pedra, noutras ainda de pé, indeciso como tudo por ali, sem saber se vai, se fica, um estado reflectido na última refeição de Malaquias, pipocas e tremoços subindo e descendo entre a boca e a boca do estômago, Malaquias sentia-se indisposto, vómito seco e transpiração desaguando em gorgolões, coração que era um tambor tumultuoso a bater-lhe carregado no peito, os olhos dele revirados para o portão alto de ferro velho e entortado onde ainda se conseguiam ler algumas das letras que se safaram aos actos de vandalismo do passar do tempo, ainda dizendo “Escola Primária” em letras esparsas sobre o arco do portão, entrosadas em palavras com falhas, como numa boca cheia de dentes pretos, podres, e Malaquias, o Grande, estatuária barriguda erguida à indecisão do lado de fora do portão enferrujado, vago entre o atravessar para o outro lado ou, muito pelo contrário, não, agora que ali estava sentia que pendia mais para o não, que a mulher se calhar até tinha razão, que ele, que nunca gostara especialmente de crianças, viera até ao fim do mundo com a esperança de salvar uma, e mesmo que fosse sobrinho dele, ou sobrinha, impossível saber qual dos gémeos ainda estaria vivo, o melhor que tinha a fazer era dar meia-volta, ir para casa, entregar-se à policia, escapar à loucura, se ainda fosse possível, tinha fé que fosse, queria acreditar que sim, e viver o resto da sua vida a ver o sol, mesmo que fosse aos quadradinhos, sempre o veria nascer e pôr-se nas linhas dum horizonte que ali, na Cidade Baixa, não existia, mas não podia, Tattoo estava a olhar para ele, a vê-lo tremer e disse-lhe:
“Não vai entrar?”
“Cala-te, puto.”
“Ele está lá dentro.”
“Cala-te, puto.”
“Pensei que queria apanhá-lo.”
“Puto…”
“Do que está à espera?”
“Cala-te.”
“Tem de vingar a minha mana.”
“Cala-…”
“Não consigo matá-lo sozinho.”
“…te.”
A voz do miúdo roía as pontas aos nervos de Malaquias, por isso era bom que se calasse, favor do tamanho do mundo que lhe fazia, melhor que não o chagasse, crianças tinham o condão de o exasperar, mas aquela começava a competir pela taça, pelo ouro, e melhor faria em calar-se, o miúdo que não pensasse que era o Palhaço que o assustava, que tirava Malaquias, o Grande, do sério daquela maneira, trinta anos a fazer o que fazia, fazendo-o melhor que ninguém, o problema era o sítio onde estava, não a escola, ou o que restava dela, mas a Cidade Baixa, o maldito buraco negro na Terra feito com o tacão da bota de Deus, sim, era isso, só podia ser, o Palhaço não, desse não tinha pavor, não tinha medo de ninguém, muito menos desse criminoso torpe, ao qual continuava a querer muito chegar a roupa ao pêlo, mais, ainda acarinhava nos recantos menos encantadores da mente cada uma das coisas agradáveis que planeava fazer ao canibal das trombas pintadas assim que lhe pusesse as mãos em cima, mas calma, era preciso ter calma, era preciso que aquela vertigem, que não era medo, amansasse, que a roda parasse e que, se calhar, vomitasse, eram ideias assim que faziam o mundo andar à volta, e Malaquias arqueou para o lado, aguentou-se de pé com uma mão espalmada no muro da escola.
“Blegh.”
E vomitou em jacto contra o muro da escola a cerveja e os tremoços e as pipocas com manteiga e talvez o almoço, fosse lá o que fosse que ele comera, já não se lembrara do quê nem do quando, nem conseguia reconhecer nada de entre os pedaços regurgitados sob pressão para os pés, conteúdos estomacais a lavarem à pistola o sangue e os miolos e os intestinos de anjo caído dos céus em cheio nos seus sapatos e, de repente, Malaquias sentia-se melhor, não bem, não chegava a tanto que se sentisse bem, ainda, mas melhor, para já, nada mau, e nem se importou com a porcaria na costura manual dos Bruno Magli que trazia calçados nem no mal empregado que era ter trazido aquele par para ali, limpou a boca com as costas da mão esquerda, cuspiu saliva azeda, três ou quatro vezes, só então deu por sentir a grandeza retornar ao seu estado de espírito, sentiu-se Grande outra vez, corrigiu a postura, a coluna regressou à posição vertical, fazendo-se novamente crescido para o mundo, as cores voltaram à sua face e a vontade férrea ao seu semblante, uma vontade indomável, ecoando a determinação exibida na penitenciária do Monte, superando até os níveis de adrenalina que o levaram a inscrever o seu nome na lista de pesadelos que iriam interromper amiúde o sono de muitos, se não de todos, os guardas prisionais ao longo do resto das suas vidas envergonhadas, era esse Malaquias, o Evadido, que enfim endireitava o corpo em frente às grades omissas do portão da escola primária, mas não só, era também Malaquias, o Bombardeiro, e Malaquias, o Astuto, e Malaquias, o Incansável, e muitos outros Malaquias mais, todos eles o qualquer coisa digna de nota, o adjectivo nos píncaros do positivismo pessoal, do elogioso configurado a preceito, recuperando do que afinal não era a chegada, para ficar, como um parente indesejado, da demência, mas sim, e apenas, uma pontinha de indigestão, quem sabe se não deveria ter seguido o conselho do tipo das polaroids com vozes dentro sobre não tocar nos tremoços, os tremoços é que o haviam lixado, e ele que os comera só por comer, às vezes Malaquias era assim, o Comilão, a falecida bem que o avisava, tantas vezes quantas depois lhe dizia que bem o tinha avisado, em vão, enfim, não estar agora a pensar na reverenciada falecida naquele momento era um conselho que Malaquias estendia a si mesmo, a loucura expurgada do seu organismo junto com os tremoços tóxicos, aproveitar agora que a saúde mental regressava em força para fazer o que viera ali fazer, e fazê-lo bem feito, e duma vez para sempre, Malaquias olhou para o rapaz que o mirava, descrente, e em voz baixa trocaram impressões a fazerem muito lembrar as seguintes:
“Pensei que não ia parar de vomitar.”
“Foi só qualquer coisa que comi, puto.”
“Comeu muito dessa coisa, então.”
“Já me sinto melhor.”
Tattoo, dizia o miúdo que se chamava, impossível confirmar a sua história, Malaquias continuava a achar o puto algo estranho, quer fosse pela sua roupa num preto solene dois números acima da sua largura de ombros, quer fosse pelo rosto quase sempre fechado, lábios apertados largando agora alucinados num lesto palavreado sobre o Palhaço, adversário de ambos em particular e em geral de todas as crianças de tenra idade, circunlóquio que só fazia sentido quando dito no contexto da bizarra pessoa do Palhaço, que gostava delas tenrinhas, para comer, e que chegara à Cidade Baixa vindo do nevoeiro que todas as manhãs se depositava nos estreitos arquitectónicos para negar a luz do sol aos seus habitantes, que já tinham problemas de sobra, tinham mesmo um excedente de fundamentos que os levavam, por exemplo, a saltar das suas janelas, das varandas dos viadutos, não havia necessidade de se juntar a antropofagia juvenil à coluna do “não, nunca” no deve e haver de motivos para se viver, ou não, ali, ninguém se mudava para um sítio onde nada acontecia pelas melhores razões, quem chegava vinha para piorar o que já estava mau ou para tirar proveito do pior que os outros faziam, e o Palhaço nesse sentido acumulava, o pior palhaço é aquele que se ri das suas próprias palhaçadas e que, não satisfeito, comia o seu público, e que um dia fora contratado para a festinha fim de ano da escola da irmã de Tattoo, número de telefone levantado por alguém do concelho directivo duma página das páginas amarelas, de debaixo da imagem dum palhaço sorridente mas que não mostrava os dentes, não os mostrava até ser tarde demais, para não estragar a surpresa, e que surpresa, nham-nham, e o Palhaço apresentou-se a horas no local certo, sem dúvida parecido com aquele local, onde Malaquias ouvia Tattoo contar a história à sombra do muro, e enquanto o diabo esfregava o olho comeu a primeira turma numa das salas, seguindo a festa na sala ao lado, com a turma seguinte, e assim sucessivamente, foi um festim, lá pelo meio comendo a mana de Tattoo, Tattoo até duvidava que a tivesse saboreado, a comer à pressa daquele jeito, a enfardar, duvidava que tivesse apreciado a doçura da sua mana, a sua candura, que o assassino só podia ver as escolas primárias como estabelecimentos de comida rápida, como aqueles restaurantes do coma-tudo-o-que-conseguir-comer, o sacana comia, não era um gourmet, estava mais para galifão, para um Sebastião come tudo, tudo, mas mesmo tudo, incluindo a mana de Tattoo.
“Tinha só seis anos.”
“Pulha!”
O Palhaço não dava ares de quem quisesse saber, marchava tudo, e os restos que porventura ficassem para trás mal davam para irem condignamente a enterrar, deixando os pais agarrados à saudade que as fotografias da descendência por ele mastigada, se era que mastigava, se era que não engolia simplesmente aquilo que trincava, tornavam dolorosamente insuportável, como se a negação de um qualquer futuro a petizes desbarbados fosse o condimento indispensável para dar aquele gostinho especial à dieta do monstro, tal como, quiçá, ele gozasse o prato cheio de loucura que servia às famílias afligidas pela sua fome voraz, multiplicando o número de vítimas num itálico a posteriori, devastando famílias inteiras, como fora o caso da de Tattoo, convencendo o miúdo de que o Palhaço não era humano, não podia ser, uma criatura assim podia lá agora ser de carne e osso, como ele e como Malaquias eram, mas alguma vez?
“O Palhaço só pode ser o Diabo.”
“Não te preocupes.”
“Como se mata o Diabo?”
“Não sei, puto, mas garanto-te que me vou divertir à brava a tentar descobrir.”
No IC19 há meia hora parada no tráfego. O que estou eu aqui a fazer? Pensava para com os meus botões. Parecia que tinha enlouquecido. Não me reconhecia. Já tinha ouvido falar muitas vezes naquela estrada nas notícias, nos telejornais. IC19 . Mas não sabia o que era até ter começado aquele trajecto até Sintra onde havia começado a trabalhar há quinze dias. Após 12 anos a viver na tranquilidade bucólica de Trás-os-Montes.
Mais meia hora de pára arranca e lá cheguei ao centro do burgo. Estava a substituir uns colegas que estavam de férias. O ambiente era excelente. Logo que vesti a bata branca voltei a sentir-me dentro da minha pele. Afinal eu ainda era eu, a veterinária. O mundo recuperava a sua lógica.
No entanto aquele dia iria ser extraordinário. A Susy, uma das auxiliares, acabara de receber uma chamada telefónica invulgar. A sua ingenuidade não lhe permitia discernir se era a sério ou uma partida por isso veio ter comigo e disse: “ estão a pedir um veterinário para um filme...ou lá o que é...” Passou-me o telefone. “Sim, para sedar um cão que vai entrar num filme? Claro que sim. Sim. Vou aí, pois com certeza. Com certeza. Obrigada eu. “
Era mesmo verdade. Um senhor que era cliente da clínica fazia parte da produção de um filme luso-austríaco, que estavam a filmar na serra de Sintra. Estavam a precisar de um veterinário que fosse lá pôr um cão a dormir para fingir que estava morto. Fiquei entusiasmada: ia estar no lado de lá do cinema, a arte que tanto adorava!
Levei a mala dos medicamentos e a Susy que quase tão excitada quanto eu.
No local das filmagens senti que eu própria estava a viver um autêntico filme. As câmaras, as luzes, o equipamento sofisticado, as pessoas todas a trabalhar. Eu e a Susy já estávamos ao pé do animal que era uma rafeirita meiguinha e simpática que também não percebia muito bem o aparato em seu redor. Esperei pouco até o realizador vir ter comigo muito delicado, falando num inglês desenvolto. Comunicamos sem problemas: ele queria a cadela muito sedada para que parecesse mesmo morta pois a história do filme era um policial e naquela cena o protagonista chega a casa e depara-se com o seu animal de estimação morto. Mas ele precisava dos meus conselhos técnicos pois no argumento não estava definido de que forma fora o animal assassinado. Qual era a minha opinião? Por esta não esperava eu. Teria de participar na história também! Foi emocionante equacionar com ele as várias opções e o seu efeito visual. Envenenada, esfaqueada, morta a tiro? Escolhemos a terceira opção pois apesar de ter de haver sangue não teria de ser em grande quantidade o que não tornaria a cena demasiado chocante. Estava feito. Fiz as minhas contas mentalmente à dose do medicamento, completamente confiante na minha experiência em cirurgia e consequentemente em sedações e anestesias. Mas claro que a minha responsabilidade neste caso era duplo: por um lado a saúde da cadela não podia ser posta em perigo de forma alguma, por outro ela não podia mexer-se mesmo senão a cena ficaria estragada.
Tudo estava a postos. Não. Nem tudo. O actor tinha dúvidas. Dialogava com o realizador em alemão e eu não pescava nem uma palavra. Lá veio outra vez o cineasta ter comigo. O problema é que o actor queria que eu lhe garantisse que o bicho não lhe morderia durante a cena, pois tinha medo de cães. Fui ter com ele e com muita calma, pois as estrelas de cinema tendem a ser muito sensíveis, contei-lhe que a cadelinha era muito mansinha e mesmo que por acaso acordasse (o que não iria acontecer pois eu era muito competente) ela nunca o morderia. Ficou satisfeito.
Acção!
O homem chegou a casa e viu a cadela morta no chão, à porta da sua casa. Pegou nela com todo o cuidado e demonstrando verdadeira emoção dançou uma valsa com ela nos braços. Um espectáculo! Verdadeiro trabalho de actor. A cadela não se mexeu. foi um êxito. A cena foi repetida e estava pronta. O realizador veio ter comigo agradecendo e eu dei o antídoto à cadela. Passaram 5 minutos e todos esperamos que ela acordasse sã e salva. Quando se levantou ouviu-se uma salva de palmas. Era para mim! Por uns breves segundos, eu fora a estrela da companhia. Trocamos agradecimentos, despedi-me e fomos embora. E foi assim a minha pequena incursão naquela que todos dizem ser das artes a sétima.
A atmosfera venal do interior do Sol Morto não iria deixar muitas saudades a Malaquias, o Grande, a não ser pelas gordas pipocas, não pelos tremoços, nunca pelos tremoços, que sabiam a terra pantanosa, e mesmo a vontade de voltar para trás e pedir mais um balde de saboroso milho implodido e salteado e barrado em manteiga desvaneceu-se da sua mente vigilante assim que ele se apanhou mais uma vez cá fora, na ambiência empoçada das artérias do meretrício e da mercancia de estupefacientes, tudo feito às claras, embora estivesse sempre escuro na Cidade Baixa ou, na melhor das hipóteses, pardacento, o que vinha a dar ao mesmo, e se Malaquias fosse a autoridade por ali aqueles vermes logo viam a força bruta do longo braço da lei, aqueles lombricóide sub-humanos depressa aprenderiam a comportarem-se como cidadãos decentes e bem apresentados, Malaquias até estava tentado a tomar a si a árdua tarefa de lhes ensinar o bê-á-bá da rectidão, ou não tivesse ele passado trinta anos do outro lado das colinas a manter a mole humana na linha, mas isso era do outro lado das colinas, ele agora estava do lado de cá e tinha outros assuntos em mãos para resolver, coisas pendentes, nomeadamente o Palhaço, sim, o Palhaço, patife indómito, mastigador dos seus parentes, assassino em série de difícil apanho, que o atraíra àquele buraco fundo, imundo, aberto no meio do mundo, agitando-lhe à frente das faces avermelhadas a reduzida possibilidade de ainda conseguir salvar um dos seus sobrinhos, a metade ainda viva, talvez, dum par de gémeos, um com e outro sem, impossível saber qual deles ainda tinha pulso sem ir ao covil do assassino e ver pelos seus próprios olhos, aqueles que a terra, um dia, tinha o seu consentimento para comer, não o Palhaço, nunca o Palhaço, que já comera o suficiente, já comera por todos os anos de vida que lhe restassem, não eram muitos, não eram nenhuns, se dependesse de Malaquias o Palhaço não voltava a ver a luz do dia, quanto mais a Primavera seguinte, se dependesse de Malaquias o Palhaço não voltava a ferrar o dente nalguma criançola ingénua, que a infância não era nenhum jantar volante para ninguém, a petizada merecia crescer, não ser digerida, e em nome de todas as crianças do Mundo Malaquias ia pôr o Palhaço a dieta, ai não que não ia, a dieta, de chumbo, e do grosso, e de sanduíches de nós dos dedos, dos dedos dele, dele, Malaquias, Malaquias, o Bombardeiro, Malaquias, o diplomado nutricionista acabado de chegar à Cidade Baixa com complicados cálculos de calorias a nadar-lhe no mar agitado do seu cérebro, enquanto seguia do passeio o rapaz que seguia no meio da estrada, mais uma infracção no livro de regras do bom peão, o rapaz que o viera buscar ao Sol Morto e prometera levá-lo até ao assassino e com quem a certa altura trocou estas breves impressões:
“Quem és tu, puto?”
“Tattoo.”
“Quantos anos tens?”
“Treze. Sou pequeno para a idade.”
“Como conheces o Palhaço?”
“Por causa da minha mana.”
“Fez mal à tua mana, o Palhaço?”
“Trincou-a, mastigou-a, roeu-a, mordiscou-a, engoliu-a, digeriu-a e no fim evacuou-a. Os meus pais tiveram de reconhecer os restos mortais da minha mana através das fezes tipo fartura que o Palhaço deixou a boiar na sanita do infantário.”
“Não puxou o autoclismo?”
“O Palhaço? Não.”
“Sacana.”
“O meu pai é que puxou. Foi o único funeral que a minha mana teve.”
“Sacana.”
“Cuidado com os anjos.”
“Anjos? Que anjos?”
Assim que Malaquias colocou a dupla interrogação impregnada de estranheza no extremo inferior deste lacónico colóquio, algo se precipitou nem um metro à sua frente, vindo de cima, vindo de muito alto, algo que explodiu com um ruído seco e molhado, rebentando como um saco cheio de fluidos viscosos que se esparramaram nas pernas das calças de bombazina azul de Malaquias, que deixaram de serem azuis, ficaram mais parecidas com os tons mais escuros do magenta, e quando Malaquias percebeu finalmente o que era que viera a abrir do céu de chumbo e que por pouco não tinha logrado atingi-lo, apressou-se a juntar-se a Tattoo quase no meio da estrada, os sapatos embebidos em porções gelatinosas de sangue tipo O do tipo que decidira pôr fim à sua vida, sem dúvida a isso levado pelo ambiente opressivo da Cidade Baixa, pelas nuvens sem sol, pelos dias sem luz, pela loucura que cansava um gajo que se demorasse muito por aquelas paragens, pelo desespero que essa loucura engordava, Malaquias não precisava que lhe fizessem um desenho, ele próprio experimentara essa loucura em primeira mão quando a mulher, falecida ia para algum tempo, o acompanhara espiral abaixo no caminho para cá, lhe moera o juízo duma forma que nunca em vida fizera, e depois abrira a porta do carro e desaparecera na multidão de mortos-vivos que habitava aquele círculo do Inferno, profundo, onde os anjos iam cair e, Deus, aquilo no seu sapato serra mesmo parte da massa encefálica do desgraçado?
Malaquias preferiu não descobrir que partes daquele anjo tinham ido parar ao seu guarda-roupa, procurou concentrar-se no problema de encontrar o Palhaço, focar a sua atenção no Palhaço, esquecer os miolos de maníaco-depressivo que faziam os seus sapatos soar como se estivesse a atravessar um rio com eles calçados, slosh, slosh, macerando as memórias do suicida a cada passo, seguindo o miúdo chamado Tattoo, como o tipo baixinho da Ilha da Fantasia, outro suicida, tentar esquecer o suicida, olhar para os topos altos dos prédios negros, tentar parar de tremer, Malaquias, o Grande, não tremia, era aquele lugar maldito a mexer-lhe com os nervos até ali de aço, a Cidade Baixa a tentar influenciar o seu estado de espírito, a tentar e a conseguir, Malaquias abstraiu-se da humidade peganhenta que sentia nas pernas das calças com novo diálogo trocado com o miúdo, que era mais um monólogo, que Malaquias não arriscava a falar não fosse Tattoo perceber o quanto a sua voz tremia, e o que o miúdo disse foi muito parecido com isto:
“A mãe enlouqueceu. Nem tinha feito um ano da morte da minha mana quando se tornou um anjo na calçada. Manchas de sangue nos sapatos de estranhos. O pai tinha muito menos curiosidade nos prazeres do voo livre. Afogou-se na garrafa. Demorou mais tempo mas pelo menos morreu alegre. Fiquei sozinho neste lugar. Há dois anos que procuro o Palhaço. Acho que o encontrei. Vai ajudar-me a matar o Palhaço?”
Malaquias acenou afirmativa e distraidamente, olhava em frente, para o passeio oposto daquela avenida larga onde uma mulher estava parada de pé a mirá-lo, era a mulher dele, a falecida, ainda no vestido com que fora a enterrar, ainda a olhá-lo com desaprovação nos olhos, a cobrar-lhe pelo desprezo que ele toda a sua vida demonstrara pelos mais novos, o desamor pela ideia da paternidade, a alergia à mesma, para tristeza da falecida, único amor da sua vida, por quem faria tudo menos fecundá-la, isso não, que a entregara à morte em grande estado de depressão, negando-lhe descendência, e agora ali andava ele, quase de mão dada a um rapazinho que não lhe era nada, mergulhado na demência da Cidade Baixa por causa dum sobrinho que nunca lhe dissera muito, Malaquias devolveu o olhar à mulher, juntando-lhe uma promessa muda, a de ir à procura dela quando o assunto com o Palhaço estivesse resolvido, ir à procura dela e irem-se os dois embora daquele sítio escuro e desesperado, e a mulher encolheu os ombros a mais aquela promessa dele e pôs-se a andar pela calçada na direcção contrária como quem dizia que não queria ser encontrada, ele que ficasse com o miúdo, o tal que estava a falar e a dizer coisas neste género:
“Aquela senhora, é alguém que conhece?”
“É a minha mulher.”
“Ah.”
“Está morta.”
“Ah.”
“Estou a enlouquecer, puto?”
“Está.”
“Porquê?”
“É a Cidade. Não se preocupe.”
“Não?”
“A vida e a morte são só mais dois estados de espírito na Cidade Baixa.”
“Que porra.”
“Também vejo fantasmas, às vezes. A minha mana vem ter comigo quando estou mais triste. Incentiva-me a continuar a minha busca. Sem a minha mana, nunca teria descoberto onde se esconde o Palhaço.”
Continuaram a andar, Malaquias cada vez mais febril, pelo meio da estrada onde poucos carros passavam, e os que passavam não traziam ninguém ao volante, ninguém que Malaquias identificasse como ser humano, eram mais almas gastas com olhos abertos, que davam pena ver passar, até que deixou de olhar, olhos apenas postos no caminho que levou a um desvio, Tattoo a guiá-los para uma rua transversal e retorta e mais escura ainda de prédios mais baixos mas inclinados para a frente, janelas iluminadas por luzes fantasmagóricas, fracas, fracas como Malaquias se sentia fraco, ausentes como Malaquias se sentia ausente, os passos molhados dele a deixarem pegadas húmidas de sangue e tripas de anjo, o estômago às voltas como uma máquina de lavar, pipocas e tremoços semi-digeridos a subirem-lhe à boca e ele e engolir tudo de volta, azia para todos os gostos, quente e amarga, subiram a rua íngreme em silêncio, o coração a palpitar entre as mamas masculinas de Malaquias, o ar a faltar-lhe, a transpiração a manchar-lhe o colete, até que Tattoo parou e esticou o braço e o dedo e disse:
“É aqui.”
E esse "aqui" era uma escola primária em ruínas.
