UM BOM NATAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAL! DESEEEEEEEEEEEEJO UM BOM NATAAAAAAAAAAAAAAAAL PARA TOOOOOOOOOOOOODOS VÓS!
Então é assim...
Coloquei à venda uma carpete de sala em vários sites de classificados online, com a seguinte descrição...
"Vendo carpete com dimensões: 2.5mx2.85m, por 60 euros (negociáveis). Encontra-se na zona do Laranjeiro."
Não sei se o anúncio tem algo de sugestivo ou se foi o Google Translator a induzir a amiga Mercy em erro, mas uma das mais recentes respostas foi esta...
"Olá Queridos
Meu nome é Mercy uma senhora simples escrever para a amizade, depois de ver seu perfil aqui, então eu deiced para te escrever, entretanto, pode também chegar-me com este endereço, para enviar as minhas fotos e mais detalhes sobre mim ok ou você também pode escrever-me para trás com este ID.
(mercyjfj@hotmail.com)
Misericórdia."
Cara Mercy, eu sei que refiro que o valor é negociável, mas quando disso isso o que eu quero é dinheiro mesmo!
“Ágora” é um filme de Alejandro Amenábar, passado em Alexandria, no séc. IV D.C. na altura em que o cristianismo, na sua fúria vingativa, ganhava terreno sobre as religiões pagãs do Império Romano.
No centro da trama está Hypatia, que realmente viveu nessa época. Hypatia era uma mulher bonita que exercia um fascínio poderoso sobre os homens que a rodeavam. Mas Hypatia era muito mais que apenas uma mulher bonita. Era uma mulher bonita que pensava. Estudava astronomia, matemática, geometria e ensinava numa academia. Foi uma filósofa de prestígio no seu tempo, uma mulher verdadeiramente excepcional.
O filme é todo ele atravessado por contrastes. Um contraste profundo entre o fanatismo de uma religião em ascensão, que usava a violência para se afirmar politicamente, e a razão de uma mulher serena que pretendia celebrar o conhecimento e a união entre as pessoas.
Aquela mulher só almejava descobrir os mistérios do movimento dos astros. Como se deslocavam a Terra, o Sol, os planetas? O que estava realmente no centro do Universo? A Terra, como afirmava Ptolomeu? Ou seria o Sol, como ousara afirmar Aristarco?
Hypatia fazia cálculos mas nada parecia bater certo naquelas rotas em círculos perfeitos dos planetas em torno da estrela. A perfeição dos céus não fazia sentido. Até que, olhando para o seu Cone de Apolónio, descartou o círculo, a parábola e a hipérbole ao perceber que a forma imperfeita restante, a elipse, era a solução. E fez-se luz no espírito, em vésperas do nascimento da Idade das Trevas da Humanidade.
Outros contrastes encontram-se, por exemplo, nas cores diferentes que os membros das várias religiões envergam e que permitem um efeito visual excelente nas cenas de lutas entre cristãos e pagãos, cristãos e judeus, e que permitem ainda distinguir de entre os cristãos um grupo especialmente agressivo, os Parabalani, fundamentalistas da pior espécie, que na sua marcha imparável de barbárie movimentam o enredo do filme na direcção de um terceiro acto trágico.
Não se está habituado a ver os cristãos como fanáticos intolerantes que levam tudo à frente e não têm piedade para com aqueles que não comungam da mesma fé. Em “Àgora”, demonstram fraca memória da sua própria história e demasiada habilidade no uso das mesmíssimas tácticas usadas contra cristãos quando eram eles que estavam em minoria, acabando, por não terem sido capazes de aprender noções de humildade e empatia, a cometerem as mesmas atrocidades que sofreram na pele.
Mas de facto eles arrasaram com as religiões mais antigas, aniquilaram culturas inteiras exibindo um desdém pelo saber amealhado pelas mesmas ao longo de milénios. Os pagãos, egípcios e romanos, converteram-se, com ou sem convicção, e os judeus foram massacrados e relegados para segundo plano. Aqueles cristãos que destruíram a biblioteca de Alexandria, numa das cenas mais chocantes do filme, eram autênticas bestas e Amenábar, apesar de não ter como objectivo criticar o cristianismo, não se coibiu de os mostrar como tal.
Esta franqueza toda não deve ter sido fácil de engolir por certos públicos. O que talvez explique algumas das críticas ao filme, que não foram nada brandas e preferiram apontar-lhe algumas debilidades técnicas, convenientemente evitando abordar as ideias. E essas, por parco que tenha sido o orçamento em contraste com a ambição própria de um projecto desta natureza, sobreviveram. No filme, e na História.
O filme não é um filme menor. É, sim, um tributo ao livre pensamento, à paixão pelo conhecimento, à tolerância que provém do raciocínio lúcido. E às mulheres.
Hypatia é uma mulher com uma personalidade apaixonante. Tem uma enorme integridade moral, sem ser santa. Tem defeitos próprios da sua condição humana no contexto em que vivia, pois não consegue perceber que a escravatura é moralmente errada, mas é mesmo assim a pessoa mais inteligente, mais sensata e a mais corajosa do filme. Lutou por salvar da cegueira devastadora da maralha religiosa uma pequena parte dos milhares de pergaminhos guardados na Biblioteca de Alexandria, a mais importante da Antiguidade. À sua façanha devemos nós a sobrevivência dos poucos textos de Aristóteles que perduraram na História.
Quando é compelida a converter-se ao cristianismo, para que os seus críticos se calassem, ela recusa. Numa das cenas mais conseguidas do filme, Hypatia explica que a fé não deixa que se questione nada mas ela, enquanto filósofa, é obrigada a fazê-lo constantemente.
Não existe uma relação amorosa típica entre um homem e uma mulher nesta história. Os dois protagonistas, o escravo e o Prefeito de Alexandria, estão apaixonados pela filósofa. Mas ela tem um amor maior: o Cosmos.
Esta obra-prima de Amenábar (mais uma depois de “Mar Adentro”) tem alguns pontos em comum com “Contacto”. Sagan no seu romance de ficção também tem como principal figura uma mulher. E no livro “Contacto” (ao contrário do filme em que o final está alterado) a cientista acaba por ficar sozinha. Foi um tributo prestado à mulher que é inteira, que não precisa do outro para se completar. Sagan iria apaixonar-se por Hypatia, como o espectador que perceba a mensagem do filme facilmente se apaixonará, e escreveria sobre ela no seu livro “Cosmos”.
Rachel Weisz tem aqui um dos papéis da sua carreira. A sua Hypatia está perfeita no equilíbrio entre paixão pelas descobertas da ciência e moderação do discurso político com que tenta apaziguar os ânimos entre partes desavindas. Uma interpretação memorável. Uma beleza iluminada. Uma verdadeira estrela.
Max Minghella interpreta Davus, o escravo pessoal de Hypatia, a personagem co-adjuvante mais sólida do restante elenco. As emoções de Davus dividem-se entre o amor que tem pela sua senhora e a revolta que sente pela sua condição de escravo. Se para o amor não encontra saída, vê no cristianismo uma oportunidade de ser livre. Junta-se ao braço armado dos cristãos e participa nas chacinas, sem nunca esquecer a capacidade de questionar o que faz e por que o faz. No final, mesmo sabendo-se impotente para deter a sede de destruição dos cristãos que inevitavelmente ditará a sorte da mulher que ama, Davus prova ser melhor aluno dos ensinamentos de Cristo do que os seus irmãos Parabalani. O seu último acto de compaixão acaba por representar a um rasgo de esperança na Humanidade.
De movimentos sonolentos, surgiu em palco a rapariga com uma máscara pálida pintada no rosto redondo e bonito. Apresentava-se vestida de corpete justo, preto e sem ombros, pequena saia em renda branca de folhos soltos nas ancas estreitas, e collants pretos decorados com um padrão multicolorido de losangos ao longo e de roda do desenho elegante da perna. Dançava ausente à volta da grande guitarra que mais parecia um contra-baixo e que ela segurava com os braços nus como se o instrumento fosse o seu Arlequim, a quem os seus lábios, duas gotas de vermelho vivo na pintura branca da face, cantavam, sem se fazerem ouvir, uma canção de amor. Hipnótica em toda a actuação, terminou com o seu corpo esguio aninhado no da guitarra, a cabeça pousada na curva do braço do instrumento e o cabelo longo derramado no tampo, ambos no mesmo tom de mogno, a fingir que dormia e que sonhava com o namorado.
Vi-te a espaços cada vez mais lentos, entre os rasgões da turba sacudida pela batida. Enxugavas as tuas lágrimas com as costas da mão. A tua beleza tornava redundante o som de todas as palavras com mais de uma sílaba. Meter conversa contigo teria sido frustrante, impossível. O oxigénio piscava numa mancha confusa de memórias que nunca pegaram e era-me insuportável fechar os olhos, deixar de te ver, mesmo que só por um instante. Com a saliva a coalhar debaixo da língua, não consiguia engolir. O ar aqueceu à tua volta como uma brisa de verão. Tudo cheirava a rosas. Lembro-me bem. Rosas. E depois, desapareceste.
Todos os dias faço o mesmo trajecto para o trabalho. Cinco minutos após colocar o carro em marcha percorro uma estrada à beira de uma serra de modesto relevo, plena de vegetação rasteira, que do outro lado tem as traseiras de fábricas industriais, empresas de serviço e grandes superfícies comerciais. A via é secundária e discreta, o trânsito intenso. É portanto a localização perfeita e elas lá estão. Faça chuva, faça sol, ao relento dos dias, aquelas mariposas ocupam o campo. Debaixo de um chapéu de praia, sentadas em cadeiras de plástico a folhear revistas. São dois pequenos grupos de matronas pesadas e de idade que se esperava respeitável.
Confesso que já nem as olho com atenção durante o meu percurso habitual nos dias úteis. Conheço-lhes as feições tristes, as poses exageradas, as roupas pardas. Mas aos Sábados lá estão elas. Enquanto os outros passeiam, eu continuo a ir para o trabalho e as borboletas lá estão de plantão recordando-me que não estou só na minha sina de não descansar ao sexto dia. Reconcilio-me com o meu dia e acomodo-me melhor nos estofos da viatura pensando na fragilidade do pano do chapéu-de-sol que permitirá que o vento frio as trespasse nas cadeiras rijas.
Aos Domingos encaro-as de frente a perscutar-lhes as emoções. Estarão tão cansadas quanto eu? Haverá revolta por terem de suportar a fúria selvagem dos elementos enquanto os bons cristãos vão à missa, pachorrentos?
Mas aquelas andorinhas não se deixam descodificar facilmente. Fico na dúvida até chegar ao meu posto. E durante o dia quando calha a receber uma dolorosa dentada de algum animal menos domesticado penso que outras mulheres também por obrigação do seu ofício estarão a ser alvo de ferroadas que lhes dilacerarão as carnes. Colegas na arte de lidar com o lado selvagem da vida.
De volta à casa vejo-as ainda de serviço, alvo fácil dos caprichos do tempo e dos machos em cio que continuam a povoar as bermas da Avenida Marconi. Sorrio com a ironia da toponímia. Quase parece que elas, reconhecendo-me, me sorriem também.
Algo me puxa mas não quero ir. Resisto a deixar-me levar. Impeço-me de descer essas escadas íngremes e escuras. Rogo. Imploro. Para ser poupada ao tormento. Faltam-me as forças e já vou de rastos. Perco a noção da minha vontade. As pernas sem vida, batendo na pedra. E cada vez mais para baixo. Para o fundo. E tudo vai começar de novo. As visões. A memória do que foi. Volto ao passado. Revivo. Vejo-te.
Dois anos depois, uma vida mais tarde, revisito Santo António do Coce. Chego na passada. A minha sombra é breve e silenciosa a caminho do monte onde deixei o futuro à espera. Não o monte do Caroço, que por enfermar demasiado no óbvio e em nome do segredo preteri, mas o outro a seguir, do qual faço agora meu destino, o da Misericórdia.
Dois anos duma impaciência só a custo reprimida atrás das grades. Cada dia vivido no receio de me esquecer da localização do dinheiro que me levara ao calabouço. Tivera o pouco juízo de o roubar mas, sabendo que me deitariam a mão, a cautela suficiente para o emparedar antes que a mim fizessem o mesmo.
E tão bem o escondi. O meu dinheiro. Até da memória, que me iludia nos dias demorados de calabouço, ao ponto de receá-lo perdido para sempre. Dois anos nesse desassossego. Recapitulava mentalmente o mapa de palavras que não ousava dizer a ninguém: um monte no meio do Alentejo. Uma casa igual a tantas outras. Um chaparro indistinguível dos demais. Não há que enganar.
Agora, os meus passos carregam consigo o seu quinhão de incerteza e de esperança. Oculto debaixo do casaco a mesma baioneta que alforriei das mãos de um praça cadáver dos dias em que fui um dos que impediram o avanço da coluna de Soult no Buçaco. Ontem fruto de um feito heróico, hoje cobra-me na ligeireza e no espírito. Para esburacar a parede a trago, assim prometi a mim mesmo, mas também a sei fadada a alguma pessoa que se me atravesse no caminho. Não é meu desejo nem o adivinho, pois à conta disso viajo de noite e apenas a noite me acompanha por este caminho ermo da fortuna.
Deixo atrás de mim o monte do Caroço e o ladrar dum cão que não me vê mas que me pressente. Já não falta tudo. O crime que cometi está saldado nas contas dos homens. É hora de receber o meu.
Vejo a casa do monte da Misericórdia. Dois anos passados acho-a igual. Porque julgo lembrar ainda, procuro a parede com a janela que espreita o norte. Faço-me pequeno onde faz esquina, meço um palmo desviado, não mais que isso, e quatro dedos acima do chão.
Ninguém por perto. Com a ponta da baioneta começo a picar a parede. Esboroa-se no gume e amontoa-se na biqueira das minhas botas. É macia, como me lembro que era. Golpeio-a com a cautela e a paciência que me restam. Só quando a lâmina esfola por fim o latão da panela que me guardou a recompensa por dois anos sem sol, dois anos metidos num buraco, eu e o dinheiro, apresso-me.
Há-de cá estar, repito para a noite, enquanto escavo. Dois anos e ainda a mesma promessa. Há-de cá estar.
Neste poema
palavras são círculos
à volta de ti.
Arrepiantes
aranhas a patinhar
pela tua pele.
Lobos cinzentos
ao desafio chamam
os uivos longos.
Cintilam olhos
demasiado azuis
para me verem.
A ilusão não se descai. Só ela resiste à onda quente que avança sobre mim e me leva tudo o mais à vista de paisagens alienígenas. O laranja e o azul, nos tons mais intensos imagináveis, desbotam um no outro nas bordas do meu campo de visão, comigo absorto na largueza do novo horizonte. Julgo-me ileso mas para sempre mudado pela transição de quem chega doutro mundo. Com um passo em frente, como se a careta e o juvenil sorriso-resposta ao piscar de olho da minha mãe fossem suficientes contra-medidas para o tremor mal disfarçado, faço-me passageiro do meu corpo franzino na aventura de África.
Assim tombados
um Rei que ninguém chorou
e seu Herdeiro.
Astúcia régia
fez do nosso futuro
no mar história.
Incauto se deu
nosso Rei às areias
e nevoeiro
Dá-me o teu pão doce
Duro de cortar cabeça
Tudo o que me peças
Nada há que não obedeça
Sopra na flauta estrelas
Que me acendam o breu
Na noite consigo vê-las
Sendo cego, sendo teu.
Dá-me o teu pão doce
A migalha e o naco
Imortal talvez fosse
És o meu ponto fraco.
Na carne ficou a faca
E um beijo de raspão
A escuridão não tem cura
Marcaste-me o coração.
Todos os dias um poema
Todos os dias: Mário
Mil razões para o amor
Mil contas de um rosário
Todos os dias o tema
Uma prece de homenagem
No dia do calendário
A mesma personagem
O canto de um só lema
Mais palavras de regalo
Derramadas em diário
Mais um grito a chamá-lo
Até à honra suprema:
Frase chave no obituário

O primeiro livro de poemas de Ana Marques parece-me deveras pessoal. Embora seja bem possível que o mesmo se possa dizer de toda a poesia. Não sei, não percebo assim tanto de poesia. A verdade é que, conhecendo os bastidores da autora, rapidamente encontro no livro poemas sobre episódios de vida e sentimentos íntimos que recordo das conversas e das vivências tidas com ela. São momentos poéticos inspirados pela coragem das emoções que surgem reflectidas nas páginas de “Abraçar o Sonho”.
Mas não será apenas esse material autobiográfico a preencher o livro. A inspiração apresenta-se à autora vinda igualmente de estímulos externos e a leitura oferece variedade, ganhando com isso uma dimensão literária que outros melhores do que eu poderão avaliar com maior discernimento. Sou suspeito, pois actualmente durmo com a autora. Há uma mão-cheia de poemas dedicados a mim e tudo. Obrigado, amor.
Adiante.
Além da minha pessoa (assunto capaz de encher vários volumes, eis uma dica que estendo a todos), o livro inaugural de Ana Marques versa outros motes. Por exemplo, as paisagens, que são traduzidas em poemas com a versatilidade que a autora manifesta para saltitar dum objecto observado para outro, com a graça que lhe confere o seu à-vontade para manumitir do mesmismo prosaico aqueles vocábulos há muito coarctados ao desuso e que, adivinha-se, mais dificuldade terão em abrir os olhos quando trazidos assim, inesperadamente, de volta à luz.
Move-se, o livro da Ana. Viaja através da sensualidade de bom gosto imaginada com o coração, da eventual agulhada lixada própria duma autora com mau feitio (mas, oh, tão meiga para com as palavras), da fantasia fiel ao aticismo do sonho, dos sentidos presuntivos deixados a cargo do viajante fortuito e do vampirismo (no bom sentido, no sentido em que morde e seduz), com que todos os poetas trazem debaixo de olho a realidade tangível e intangível, definível e indefinida, possível e impraticável, melindrável ou antes pelo contrário e aberta a experimentar coisas novas.
Há poemas sobre mim. Já referi? Só isso já faz de Ana Marques uma poetisa digna de nota. Mas fica a impressão de que os leitores que não sejam eu também vão gostar de folhear “Abraçar o Sonho”, colher o fruto da palavra lavrada em papel pela mente frondejante duma talentosa Ficcionauta. Até pode ser que a autora vos ofereça uma cópia pois ela anda a dá-los de mão beijada, a burra.
Nota final: Nem todos os poemas presentes neste livro rimam. Isto só para verem do talento de quem vos falo.
O vento sopra
Aprisionado em pano
Desfralda-se o Mundo
